Em trinta anos, Totò atuou em mais de cem filmes e é o maior vendedor de ingressos do cinema italiano. Fenômeno só comparável ao comediante brasileiro Oscarito.
Para Totò, esculhambar a nobreza era mais do que um passatempo, era parte de sua própria vida. O comediante descobriu, já adulto, que nascera de um romance proibido entre sua mãe, uma napolitana pobre, e um marquês, rico e poderoso. De uma hora para outra, o favelado Antonio Clemente ganhou um título de nobreza e um sobrenome bem mais pomposo: "de Curtis". Quem poderia levar a nobreza a sério?
Antes de estrear no cinema, em 1937, aos 39 anos, Totò já era um astro do teatro humorístico ou de variedades. Em trinta anos desfrutou de imenso sucesso comercial, mas penou para conseguir diretores consagrados dispostos a trabalhar com ele. Sua arte era considerada "popular demais".
Foi só em 1952 que um grande nome do cinema italiano, Roberto Rossellini, dirigiu Totò, e mesmo assim, no conturbado "Onde Está a Liberdade?", filme que Rossellini quase abandonou por falta de interesse. Estava tão desinteressado que pediu a um novato, chamado Federico Fellini, que dirigisse diversas cenas, sem receber crédito. Foi a única vez que Fellini, um dos maiores fãs de Totò, dirigiu seu ídolo.
Totò acabaria trabalhando com outros excelente diretores, como Mario Monicelli, Vittorio De Sica e Mauro Bolognini. Seu papel de maior prestígio foi em "Gaviões e Passarinhos" (1966), obra-prima de Pier Paolo Pasolini.
Outros filmes de Totò considerados clássicos do gênero: "Os Eternos Desconhecidos" (1958), dirigido por Mario Monicelli, onde faz um pequeno papel como especialista em explosivos que ensina uma gangue de bandidos incompetentes a explodir um cofre; "Ouro de Nápoles" (1954), filme em seis episódios humorísticos, passados em Nápoles, dirigido por Vittorio De Sica e co-estrelado por Sophia Loren e Silvana Mangano, duas mulheres de beleza incomparável e excelentes atrizes; "Guardas e Ladrões"(1951), um dos filmes mais engraçados de Totò, com participação de Aldo Fabrizi como o policial que não o deixa em paz.
Totò era um figuraço: não tinha vergonha de estender um varal no meio de um hotel cinco estrelas, em Milão, a capital da classe e do estilo na Itália. Os seus alvos prediletos eram, justamente, a pompa e a soberbia dos cidadões rotulados de "primeira classe". Em "47 Morto Che Parla", de 1950, ele interpreta um nobre falido que, para manter as aparências, esconde uma bisteca de porco no cofre e usa azeite de oliva com conta-gotas.
Nem na morte o povo italiano deixou Totò sair de cena sem dar bis. Ele era tão popular que teve três velórios: um em Roma, outro em Nápoles, e o último, com o caixão vazio, pelas ruas do seu bairro de infância, como exigiu um temido chefe da Máfia local.
(Resumo do capítulo 36 do meu livro inédito "101 Ícones do Cinema que Nunca Sairão de Cena")


