Três artistas

Um trabalhador das tintas.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Edidelson, Gladston, Tintiliano. Os artistas reunidos no curta metragem documental ‘Transfigura’, dirigido por Raphael Borges, têm muito em comum, muito mais do que as telas assinadas por cada um trazem à flor da vista. Em primeiro lugar, desdenham do pendor elitista das grandes mercados de arte. Eles bocejam, por assim dizer, ante o palavrório difícil dos curadores. Entre o adjetivo afetado de uma madame montada nos cobres e a impressão recolhida no botequim da esquina, ficam com a crítica sempre sincera do populacho.
Não é por acaso que a câmera os surpreende na rotina do ateliê, com as mãos sujas de tinta, os olhos grudados nas telas, em plena labuta. Ali, com a mão na massa, a verdade de cada um emerge dos pincéis e das palavras. Edidelson, por exemplo, reafirma a conexão profunda com as trabalhadoras do mangue, uma reminiscência biográfica; Gladston, por sua vez, reflete sobre a beleza e o pudor, a plástica do corpo; Tintiliano, finalmente, escancara a intenção de atar os laços entre a paisagem urbana de Aracaju e a população, em favor da tão falada identidade Serigy.
Três artistas, por eles mesmos. A interferência do diretor Raphael Borges é mínima, limitada às escolhas de praxe, cortes, enquadramentos. O discurso é muito direto. O ambiente de trabalho, as telas, o som ambiente, falam por eles próprios.
‘Transfigura’ é um filme breve, quase tão curto quanto este artigo, conta cerca de 20 minutos, apenas. Não é suficiente para passar a história de três artistas com tamanha contribuição para o cenário local a limpo, de cabo a rabo. Mas dá de sobra para os retratar como de fato são: três operários da sensibilidade nativa, trabalhadores das tintas, em busca do reconhecimento mais justo e um pedaço de pão.
‘Transfigura’, de Raphael Borges, está disponível no Aju Play, a plataforma de streaming da Prefeitura de Aracaju.

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