Rian Santos
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Entre todos os adjetivos safados, empregados a torto e direito, sem discernimento, “icônico” é o mais assanhado. A ele recorrem colunistas sociais preguiçosos, jornalistas de vocabulário limitado a serviço da publicidade.
Nove entre dez releases abençoam gregos e troianos com o mesmíssimo elogio: icônico. Serve para as sete cordas de Raphael Rabello e também para a lona pedante do Teatro Mágico (ver abaixo). Cada cabeça uma sentença, claro. Mas convém preservar as palavras junto a significados.
Icônico: segundo o pai dos burros, o adjetivo diz respeito ao que se distingue ou simboliza uma época, uma cultura, uma área do conhecimento. Aplica-se, por exemplo, ao filme inaugural da franquia ‘Star Wars’, aos primeiros sambas de Chico Buarque. Hoje, no entanto, quando o grosso dos jornais não faz qualquer distinção entre os espaços editoriais e publicitários, o adjetivo emagrece, tratado a pão e água, faminto de substância, como acontece também à verdade.
Faço um teste e digito ‘icônico’ no campo de pesquisa de meu e-mail profissional. As manchetes transbordam pela tela. Entre os distintos homenageados com a coroa de papelão, figuram profissionais tão distintos quanto Pablo Vittar, Murilo Rosa, Gil do Vigor e Lina Bo Bardi. Sim, a arquiteta é prova, às vezes o adjetivo faz sentido.
Eu já troquei dois tostões de opinião pela satisfação impagável de contrariar o consenso mal ajambrado e apontar a chatice do Teatro Mágico, definido em release como um caso excepcional na música brasileira deste século. Volto à carga, portanto. Fernando Anitelli, o líder da trupe, não é ícone de coisa nenhuma. É apenas um artista pedante e chato.


