Um moralismo dramático

* Andrei Albuquerque

Recentemente, fui reler um autor do século XVI, Michel de Montaigne, que se queixava por seu século ser marcado, segundo ele, por costumes que produziriam homens “afeminados” e “frouxos”. Ao reencontrar essas queixas, notei que Montaigne não estava tão distante dos lamentos de alguns jovens atuais que sentem nostalgia por um passado supostamente glorioso, vivido por outras gerações. Em mais de quinhentos anos, as mudanças foram enormes na cultura, na organização política, na sexualidade e nos costumes. Todavia, as pessoas continuam atravessadas e determinadas por sua história familiar e por seu contexto social, sendo talvez menos livres do que imaginam e, ao mesmo tempo, sequiosas por uma ordenação moral que as guie. Se já não estamos em uma era de repressão sexual vitoriana, isso não significa que o moralismo esteja restrito à sexualidade. Ele também aponta para uma insuportabilidade diante da diferença – de gênero, social, religiosa – que incomoda até o mais ínfimo recanto de nosso narcisismo.

O filme “O drama”(2026) aborda o impacto de uma revelação que modifica o relacionamento de Emma e Charlie. Ele um jovem romântico e “emocionado”, mas desde que os seus ideais narcísicos não sejam abalados como logo serão pela revelação de Emma. Tudo segue às mil maravilhas com a preparação do casamento até que em uma prova do buffet para o casamento, Emma, Charlie, Rachel e Mike, seu marido, começam a contar o que de mais condenável fizeram em suas vidas. Vale observar que são dois casais que podem ser definidos, a partir da abominável categoria presente na cultura estadunidense, como “casais inter-raciais”: brancos que se relacionam afetivamente com negros. Na película, Emma é negra, Charlie branco, já Rachel é branca e Mike, negro, além disso circulam por uma esfera social progressista e relativamente distante daquilo que se costuma imaginar como o cotidiano do estadunidense médio. Então, quando cada um conta o que de pior havia feito, a confissão de Emma que aos 15 anos planejou, porém não executou, um massacre armado em sua escola de imediato se destacou principalmente aos olhos de seu noivo Charlie e de sua amiga Rachel. Emma que agora tem 28 anos sofreu bullying e mudanças de cidade e o sentimento de inadequação na nova escola onde planejou o massacre, ali imaginou encenar a sua agressividade como um ato de vingança plasmado a um fenômeno recorrente nos EUA, os ataques a tiros nas escolas. No entanto, arrependeu-se e aderiu ao movimento antiarmamentista em sua escola, mas carregou a sequela do que arquitetou: ficou surda de um ouvido ao treinar, escondida, com o rifle do pai, um militar. Antes dessa confissão bombástica, Charlie contou que havia praticado cyberbullying com um colega a ponto de o estudante e sua família mudarem de cidade, já Rachel confessou que durante a infância trancou um menino em um armário, dentro de um trailer abandonado em um bosque, por quase 24 horas até que uma equipe de resgate o encontrou. No entanto, ambos, Charlie e Rachel, esqueceram as suas vilanias juvenis concretizadas e minimizaram o que fizeram diante do plano, dos devaneios agressivos, de Emma. Após a revelação de sua noiva, Charlie começa a pensar em desistir do casamento que acontecerá poucos dias depois. O jovem romântico, eufórico e inseguro, que fingiu ter lido o livro que Emma portava no café onde a conheceu furtivamente e que mesmo depois, no primeiro encontro, optou por continuar sem lê-lo, parece ver os seus ideais narcísicos serem abalados, sua fantasia romântica ser arranhada a ponto de encarar o término definitivo. No entanto, entre idas e vindas e tentativas de passar uma borracha sobre a revelação de Emma, o “bom moço” Charlie deixa emergir o seu moralismo melodramático que curiosamente não se manifestou diante do ato execrável de sua amiga Rachel, nem como culpa pelo ato de cyberbullying praticado por ele em sua adolescência. Evidente que o plano de Emma teria um impacto devastador que se executado atuaria como uma chaga recorrente na sociedade estadunidense recente: os ataques armados em escolas. Contudo, o modo como ela é julgada por Charlie e Rachel aponta também para recortes raciais e de gênero, mas Emma, por sua vez, também age de forma moralista ao dispensar a DJ, que tocaria em seu casamento, depois de vê-la usando heroína em uma rua, embora o fato de ser mero uso recreativo ou dependência química não comprometesse o trabalho que a moça faria dias depois como DJ. Assim, Emma não consegue abrir mão de um julgamento moral que torna a diferença em algo incontornável.

Aqui, vale chamar a atenção para um moralismo dramático que talvez em nada deva à observação de Montaigne ou às narrativas idealizadas e maniqueístas que herdamos dos nossos familiares. E no final, após a desastrosa cerimônia de casamento, uma saída possível para Emma e Charlie foi a de tentar ler os fatos sob as lentes do cômico e do que é risível em relação aos seus atos moralistas.

* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou 2 livros, artigos e textos em jornais

Compartilhe esta notícia