Um samba curto

Paulinho da Viola (1971): "Ninguém pode explicar a vida num samba curto".

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Por raro, o silêncio se tornou, em nossa sociedade de extrovertidos, confortável feito uma roupa velha, daquelas que nos recusamos a expulsar da gaveta e acaba permanecendo reservada a momentos de intimidade displicente. Para o homem moderno, dedicado a viver em função do inferno dos outros, a pausa entre dois acordes é tida como um artigo de luxo, produto que, a despeito da perspicácia industrial dessa era de desencontros e confusão das esferas pública e privada, para nosso azar ou sorte, ainda não pode ser encontrada em exibição nas prateleiras. É esperar para ver até onde chega a astúcia dessa gente cheia de grana a quem chamamos capitalistas…
O ruído, o barulho, espalha-se ostensivamente com os homens do tempo presente. Ele ocupa todos os ambientes, sob todas as formas. O ruído em cores dos outdoors; o sorriso falso dos políticos multiplicados em santinhos abandonados pelas ruas; as notícias dos jornais controlados por gestores eleitos que confundem prestação de contas com manipulação da informação.
O ruído incômodo e escandaloso dos brinquedinhos eletrônicos, os celulares que as peruas burras exibem em seus desfiles pelos shoppings; a alegria constrangedora das FM’s e suas bundinhas atoladas numa verborragia sem sentido. O ruído mal-educado dos rebentos da classe média, que, com seu vocabulário reduzido, transformam a tentativa de desfrutar uma sessão de cinema em uma aposta improvável na exegese. Enfim, o mundo, como sentenciou alguém mais observador do que eu, é rumor e barulho.
Sinal indesejável, fonte de erro, distúrbio, deformação, o ruído, essa sombra insistente da modernidade, alimenta desejo de fenda, greta, lugar escuro, refúgio de pausa com mil compassos, o samba maravilhoso de Paulinho da Viola. O LP roda na vitrola digital e aquieta e varre, como um carinho, os restos e as sobras da festa.

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