* Anderson Bruno
É impressionante a quantidade de produções a dramatizar em seu bojo cinematográfico as questões de ordem espiritual. Este "Alabama Monroe" (The Broken Circle Breakdown, BEL, 2012, 111 min) segue a regra ao retratar um casal e corrida contra o tempo parta salvar sua pequena filha debilitada por um câncer. Sendo uma das produções indicadas ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, o filme põe em xeque a própria fé do homem diante de uma situação extremamente dramática e triste.
Até o ex-presidente americano George W. Bush aparece em imagens de arquivo desde a época dos ataques terroristas de 11 de Setembro até um pronunciamento de veto a pesquisas envolvendo células tronco de embriões. Essas projeções também funcionam como gancho para delimitar uma época dentro do espaço tempo para nos guiar cronologicamente na história.
Os referenciais americanos desse filme belga funcionam tanto como a uma homenagem quanto a um puxão de orelhas. A crítica ao País está em seu fundamentalismo cristão em não permitir que a medicina evolua (sobra até para o Papa). É como se a nação da liberdade fosse exposta como a um território hipócrita por causa dos seus preceitos dissonantes. Por sinal a metáfora sobre a liberdade X prisão é constante, seja através do simbolismo da águia americana enquanto representação dessa ideia de alçar longínquos voos quer seja na doença da pequena Maybelle (Nell Cattrysse) e sua clausura particular oriunda de sua enfermidade.
A homenagem, digamos assim, ao estilo de vida americano está na representação do ‘bluegrass’, corrente musical onde reside a raiz do gênero country. Didier (Johan Heldenbergh) é um músico a se apaixonar por Elise (Veerle Baetens), uma tatuadora cheia de figuras espalhadas pelo corpo. Uma explícita referência a Johnny Cash e June Carter, casal de músicos expoentes do country ianque.
O trabalho de fotografia do diretor Ruben Impens é bastante inspirador. Principalmente nas cenas de exposição performática da banda, os feixes amarelados dos holofotes não apenas reluzem para o brilho do palco, iluminam também todo o conceito de fotografia para cinema. O brilho não serve apenas para uma simples estética. Também está a favor, dentro da sua técnica, em nos ajudar a contar a história do casal através de suas cores e luzes.
As apresentações musicais são uma atração à parte. Com a banda acústica formada (tendo a bela voz feminina de Elise no vocal principal) o deleite fonográfico soa como afagos aos nossos ouvidos. Lembrando que o filme não é um musical. Os atos gravados com esse segmento artístico apenas ressaltam o desenvolver da história da dupla de protagonistas. A trilha sonora em ‘score’ de Bjorn Eriksson – própria para o filme – é discreta e de efeito para a produção, complementando aí a sua banda sonora.
Uma dobradinha entre a inteligente e sensível direção de Felix van Groeningen – ao explorar os detalhes de felicidade e tristeza de um casal dentro dos âmbitos matrimonial, familiar e artístico – aliada aos planos cinematográficos da edição de Nico Leunen, no intercalar de imagens em ‘flashback’ (num vai e vem sem fim que nunca perde o foco narrativo) proporciona ao público o ‘se deixar envolver’ pela história escrita por Carl Joos e Felix van Groeningen.
O único (e maior pecado do filme) está em não deixá-lo mais resumido. Ponto negativo para a edição. Sua terça parte final poderia ser abreviada para a conclusão dessa dramática e sensível história.
* Anderson Bruno é crítico audiovisual.


