Uma tal de sergipanidade

A própria Mussuca

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Últimos dias, uma tal de sergipanidade foi cantada em verso e prosa, sob o pretexto marqueteiro de uma data marcada no calendário da terrinha – um ato de ofício. Ontem, pura coincidência, no entanto, o Canal Brasil exibiu ‘Nadir’ (), documentário de Fábio Rogério focado na personagem que batiza o filme. Só então o meu peito inflou com o sentimento alardeado em posts e hashtags de ocasião. Foi como se eu me deparasse, finalmente, com o rio de minha aldeia.

Faz já uns bons anos, desde quando Fábio Rogério despencou até as lonjuras da Mussuca. Lá, com uma câmera na mão e um redemoinho de ideias na cabeça, ele foi recebido de portas abertas. Sem tempo a perder, num intervalo de poucos dias, o documentarista registrou tudo o quanto pode – cenas domésticas, cotidiano e paisagem. Somente quando Dona Nadir sobe nos tamancos, entretanto, a maravilha se revela.

Dona Nadir, o samba de pareia e a Mussuca são tudo uma coisa só. Embora a brincadeira não tenha nascido ontem, junto com a ousadia de uma senhora boa de copo, melhor ainda de alegria, a voz calejada desta negra significa sozinha o quilombo inteiro – à revelia de tudo e de todos, indiferente até à própria História.

Quem vê Dona Nadir puxando um samba, nunca deixa de se impressionar com a sua disposição para a vida. Dura na queda, ela certamente tem motivos de sobra para sorrir e chorar, como todo mundo (em uma breve passagem, o documentário o revela). A sua tenacidade, no entanto, jamais trai o dom da existência. Ela canta, dança, faz mágica, por assim dizer, expulsa o mal para longe, outras terras.

Dona Nadir é a prova muito viva de que a Cultura pode e deve extrapolar os territórios. No seu próprio chão, nos palcos e eventos onde é convidada a pisar duro, a Mussuca cresce e aparece, ganha corpo, fala alto. E o documentário de Fábio Rogério amplia a potência do gesto ancestral, numa simbiose perfeita de Cinema e Política. A fotografia é deslumbrante. Mas a assinatura do autor se percebe antes na intimidade cúmplice estabelecida entre diretor e personagem. Não à toa, o filme, do início ao fim, é repleto de silêncios.

‘Nadir’, do documentarista sergipano Fábio Rogério foi exibido em uma penca de festivais, mundo afora. Também por isso, me enche de orgulho.

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