Ler Umberto Eco se faz cada vez mais funda mental. Não somente sua obra ficcional e seus ensaios publicados ainda em vida, mas também as coletâneas que reúnem textos do italiano em torno de temas que trazem à luz, de forma ainda mais elucidativa, como funcionava, por assim dizer, o pensamento do escritor.
Neste livro recém lançado no Brasil, ‘Construir o inimigo e outros escritos ocasionais’, ele explora as raízes da civilização, as mudanças nos ideais de beleza, nossa obsessão por conspirações e os heróis emblemáticos das grandes narrativas, entre outros assuntos. É fácil fazer conexões entre o que se apresenta como teoria, ensaio, e o que Eco escreveu na ficção, em mundos fantásticos e passeios históricos. Por isso, torna-se cada vez mais fundamental, aprofundar-se e mergulhar em sua mente fascinante.
Em ‘Construir o inimigo e outros escritos ocasionais’, uma reunião de ensaios sobre arte e cultura, Umberto Eco fala sobre a nossa necessidade de ter – ou, se necessário, inventar – um inimigo.
"Ter um inimigo é importante não somente para definir a nossa identidade, mas também para encontrar o obstáculo em relação ao qual medir nosso sistema de valores e mostrar, no confronto, o nosso próprio valor. Portanto, quando o inimigo não existe, é preciso construí-lo", afirma Eco. A situação mundial do nosso tempo, marcada por uma polarização política feroz, revela como é oportuno e inevitável conhecer os mecanismos que levam os homens a identificar sempre novos adversários.
Em ensaios de extraordinária relevância, Umberto Eco reflete sobre a nossa necessidade de ter, sempre e em qualquer caso, um inimigo a atacar: seja nas invectivas dos oratórios antigos, na brilhante digressão literária que atravessa a Ilíada, nos romances de James Bond, na caça às bruxas, na propaganda de guerra do passado ou nos populismos do presente.
Construir o inimigo e outros escritos ocasionais aborda tópicos sobre os quais Umberto Eco escreveu e palestrou em seus últimos anos: a ideia de que todo país precisa de um inimigo – e, na sua ausência, deve inventá-lo -; discussões sobre temas que inspiraram seus primeiros romances, levando-nos, ao longo do processo, a explorar ilhas perdidas, reinos míticos e o mundo medieval; resenhas indignadas a respeitos de Ulisses, de James Joyce, e de jornalistas fascistas das décadas de 1930 e 1940; uma análise das noções de Santo Tomás de Aquino sobre a alma dos que ainda não nasceram; e muitos outros temas, como censura, violência e o WikiLeaks.
O autor – Umberto Eco (Alexandria, 1932 ? Milão, 2016) foi filósofo, medievalista, semiólogo, crítico literário e midiólogo. Estreou na ficção narrativa com ‘O nome da rosa’, seguido de ‘O pêndulo de Foucault’, ‘A ilha do dia anterior’, ‘Baudolino’, ‘A misteriosa chama da rainha Loana’, ‘O cemitério de Praga’ e ‘Número zero’.
Entre suas numerosas obras ensaísticas (acadêmicas ou não), recordamos: Tratado geral de semiótica, Os limites da interpretação, Kant e o ornitorrinco, Da árvore ao labirinto, Quase a mesma coisa e A definição da arte. Publicou os volumes ilustrados História da beleza, História da feiura, A vertigem das listas e História das terras e lugares lendários. Reconhecido como um dos mais importantes escritores e pensadores dos últimos tempos, grande parte da sua obra se encontra publicada no Brasil pela Editora Record.

