Urgente saber

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A poesia de Pablo Neruda nunca me comoveu.
A biografia redigida de próprio punho, uma confissão realizada em primeira pessoa, ao contrário, é dos depoimentos capazes de iluminar os caminhos percorridos por povos inteiros. Bicho político, devoto da causa comunista, o poeta chileno viveu no olho do furacão, obrigado a testemunhar o triste intervalo entre os fins e os meios adotados por imperfeitas revoluções socialistas – uma distância imensa.
É urgente, portanto, saber de Neruda. Para entender de uma vez por todas como a burocracia atrasa, desde sempre, o destino fraterno dos subjugados. Para não ceder um milímetro sequer à paranóia ideológica insuflada pelos fascistas de tocaia nos gabinetes do poder, cá no Brasil.
Neruda, um poeta comunista, militava por algo tão simples como um sonho: “Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria amanhã a esse sacerdote: “O senhor não pode batizar ninguém, porque o senhor é anticomunista.” Quero viver num mundo em que os seres sejam somente humanos, sem outros títulos a não ser este, sem serem golpeados na cabeça com uma régua, com uma palavra, com um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas e em todas as gráficas. Quero que não haja mais ninguém para esperar as pessoas na porta da prefeitura para detê-las e expulsá-las. Quero que todos entrem e saiam do palácio municipal sorridentes. Não quero que ninguém fuja de gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, escutar, florescer”.
Necessário saber também de Jorge Amado, vida, obra, pensamento, para além dos folhetins globais. ‘Navegação de cabotagem’, uma reunião de memórias, 600 páginas de eventos pontuados por retalhos de reflexão, advoga a um só tempo contra a desumanização do exercício político e o sectarismo dos radicais. Membro ativo do Partido Comunista, o escritor percorreu o mundo de olho nos personagens mais notáveis, sempre disposto ao abraço dos amigos.
Sobre o Lula das greves operárias, cujos adversários ainda hoje se esforçam para cobrir com as cores sangrentas de um revolucionário, Jorge Amado é categórico: trata-se, antes, de uma liderança genuína.
“Atento, acompanho nos vídeos a trajetória de Lula, candidato do poderoso Partido dos Trabalhadores, cuja fundação durante o regime militar tanto me alvoroçou. Não conheço Lula pessoalmente, dele falam-me bem e acredito. Parece-me homem direito, hoje coisa rara, sua atuação de líder sindical na greve dos metalúrgicos, durante a ditadura, foi exemplar. O alarmante sectarismo de seu discurso eleitoral, ao que tudo indica, não é inerente a sua personalidade, decorre da própria campanha, influência talvez dos ideólogos do PC do B, que a dirigem e orientam”.
Como se sabe, o tempo daria razão ao escritor das putas e dos vagabundos, no dizer dos desafetos. Convém, portanto, apelar à razão, ignorar as meias verdades do embate eleitoral, ater-se a fatos conhecidos e comprovados, aos documentos da História. Lula jamais foi um revolucionário, disposto a instaurar a ditadura do proletariado, como é alardeado até hoje. Longe disso. A célebre Carta aos Brasileiros poderia ter sido redigida muito antes, ainda em 89. Ou ainda ontem, como prova o discurso realizado horas após o resultado do último pleito.

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