* Paulo F.T.Morais
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No começo do século XXI, uma cidade da América Latina transformou-se numa fábula mágica.
Por volta das 6 da manhã, de qualquer ponto da principal praça da cidade, dava para ver que havia mais gente do que era costume àquela hora na calçada da padaria, que ficava numa das esquinas.
Naquele dia, então, antes das 7, não apenas a frente da panificadora, estava a praça quase toda com, pelo menos, metade de seus moradores puxando-se, mas com modos nada beligerantes, apenas sôfregos para ouvirem uns dos outros o sonho que a cidade inteira havia sonhado.
O caso se espalhou pelo mundo inteiro, instigando a curiosidade dos cientistas. Alguns deles vieram de países comprovadamente civilizados para pesquisá-lo. Confirmaram o fenômeno, sem a extensão do investigado, e referiram-se a teses defendidas em Universidades, cujas proposições confirmavam a manifestação incomum e nomeavam pessoas que haviam sonhado o mesmo sonho, porém uma cidade inteira era algo que desconheciam porque a Ciência nunca havia registrado.
Não ocultaram o pasmo, contorceram-se sob ataques de náusea diante do que ouviram, e foram embora sem entender o que se passava na cabeça daquele povo estranho.
– E o do senhor como foi, Dr. Dão?, perguntou o oficial de Justiça Zé Braga ao amigo desembargador.
– Como o de todo mundo. Os ratos invadiram a cidade aos montes, protegidos por cachorros de boa linhagem, e a maioria dos invasores utilizou a estrada que a Companhia de Petróleo mandou construir com recursos do Banco do Brasão. Apesar da guarda de dentes arreganhados, os cães não iam além dos latidos, o que nos estimulou a cair de pau em cima dos seus protegidos, mas era como se cada cacetada em vez de matar parisse mais ratos. Os cachorros eram apenas animais de cara feia, caninos expostos e olhar cambiante, porém covardes, e mais adiante observei que estavam ali apenas como mentores dos seus apaniguados, e da situação tiravam proveito.
Provavelmente, seguindo estratégia arquitetada pelos guias, os roedores poupavam do seu ânimo famélico e destruidor as bodegas e as casas menos visíveis, enquanto invadiam com fúria os supermercados e ocupavam as residências que transudavam conforto. Comiam tanto que saíam com o pelo brilhando. Os ratões e as ratazanas remoçaram de tal forma que cheguei a confundi-los com camundongos de fogão. E estavam tão bem-dispostos, tão cheios de vida que pareciam humanos. No início, não vi um só gato, apenas ouvia miados distantes. No final do sonho foi que avistei uma espécie de reunião entre um bom número deles e ratões, sempre com os cachorros-conselheiros a ganirem-lhes nas orelhas, bem ao lado da casa paroquial, enquanto o vigário, padre José De Lugan, lhes oferecia com radiante bonomia substanciais porções de queijo, linguiça, salame e carnes de primeira; em seguida, apareceu com vasos de porcelana entornando leite. Toda essa fartura emoldurada de grã-finismo, comparada com nossas comezainas, era um banquete de conciliação entre inimigos naturais.
Amigo Zé Braga, lembro-me de passagens do sonho nas quais ratos e gatos se transformaram em aliados de toda a vida, levando-me a conjeturar o crescimento e as adesões à espécie gatuna, tendo sempre a escoltá-los a matilha locupletante, e mostravam-se tão sintonizados em seus desejos que os ouvi às gargalhadas, não guinchos animalescos, tal qual pessoas desalmadas tripudiando sobre o tormento dos derrotados.
E o seu foi assim?
– Sem dúvida. O que me chamou a atenção, além do que o senhor disse, foi que, vez por outra os animais ficavam com cara de gente, agiam à nossa semelhança, e os nomes pelos quais eram chamados referiam-se aos péssimos costumes e caracteres de que eram portadores. O retorno à sua natureza ocorria de repente, de acordo com a dimensão dos atos criminosos que perpetravam em determinado momento, e então voltavam a ser realmente o que eram: ratos, gatos e cachorros, e todos nós a eles submissos, incapazes de qualquer reação. Não sei se o doutor sonhou assim, mas o que me causava intensa repugnância, além da perturbação pelo fato de ser dirigido por animais, era o privilégio dos cachorros, os quais, além de se aproveitarem da pilhagem e domínio dos ratos e gatos, fartavam-se mais do que estes, eram por eles respeitados e premiados com cargos que iam muito além dos seus instintos. A reitoria da Universidade, por exemplo, foi entregue a um pequinês padecendo de gigantismo. E houve mais. Exigidos por cachorrões muito sagazes, postos de grande importância foram distribuídos entre componentes da espécie, de inexpressiva qualificação, cachorros mesmo. Estávamos vivendo sob um regime de patas.
-Exatamente. E também vi a chegada das raposas e a reunião delas com os outros animais. O encontro, soube mais tarde, foi uma tentativa alcançada por essa raça manhosa no sentido de introduzir a astúcia como sustentáculo do governo implantado, com o objetivo de ludibriar os humanos utilizando-se de procedimentos supostamente democráticos e justos, mas que não passavam de pantomima para acalmar mentes rebeldes.
Os habitantes da cidade, alienados pelo mesmo sonho, assim continuaram noites e dias seguidos, porque em nenhum momento cessaram de sonhar, e o que se supunha fenômeno deixou de sê-lo, e enquanto os anos corriam o que era apenas um sonho, ou pesadelo, acabou se transformando em realidade.
Certo dia, bem mais velhos, o desembargador e o oficial de Justiça, como naquela manhã em que a cidade inteira se reuniu para contar o mesmo sonho, reencontram-se na mesma padaria.
– Dr. Dão, nas raras vezes em que venho aqui sempre me lembro daquele sonho. Com o senhor é assim, também?
– Que sonho, Zé Braga?
* Paulo F. T. Moraes é jornalista e escritor

