O Céu em reforma

* Paulo F.T.Moraes

Um homem riquíssimo e poderoso, visto pelos de sua condição como portador de desvio de caráter por causa de sua natureza exageradamente generosa, pede a Deus que lhe dê condições de adquirir a empresa de um concorrente. Deus anota o pedido em Sua interminável agenda, apenas por hábito, porque sabe de antemão que irá conceder meios para aquele filho disciplinado alcançar seu objetivo.  A demanda fê-lo recolocar em pauta um velho projeto divino: reformar o céu tornando-o mais fascinante e desejável , porque está decepcionado (como ouso dizer que Deus possui este sentimento, se a decepção nasce do inesperado, e Ele é Onisciente?) com o apego do homem, criado à Sua imagem e semelhança, aos bens e gozos terrenos, e o manifesta com arrogância: despreza a promessa de felicidade eterna, e não dá o menor crédito à existência do limbo, do purgatório e do inferno. A única coisa que teme é a morte.

Em dúvida (Deus, em dúvida?! Para ir em frente, preciso explicar o seguinte: vez por outra Ele se humaniza para sentir em profundidade tudo aquilo que envolve a condição humana) sobre a melhor maneira de atrair o interesse pelo céu, decide, finalmente, levar com corpo e alma aquele rico que na terra tem quase tudo que deseja a um simulacro do paraíso. Seria crime de lesa-divindade cometido por Deus contra Ele próprio conduzi-lo ao céu verdadeiro ainda vivo, privilégio na raça humana unicamente concedido à mãe de Jesus Cristo, seu filho unigênito.

 Era um teste para medir a reação de um homem abastado diante das maravilhas que estão reservadas aos que cumprem os 10 Mandamentos, e,conforme o resultado da experiência, criar divertimentos e prazeres mais sedutores aos olhos da humanidade. Se Deus houvesse escolhido um representante de uma classe desvalida ou alguém fisicamente deficiente qualquer folia o deslumbraria.  

Antes da execução do plano, Ele desativa o inferno e o purgatório, temporariamente. Não passavam mesmo de ameaças inconcludentes de castigo, que jamais soaram bem, visto que Deus é infinitamente misericordioso, e, por isso mesmo, não colaram. O limbo, lugar destinado às criancinhas que não foram batizadas, foi extinto com toda sua população, por não haver sentido mantê-las sem perspectiva de desenvolvimento físico e mental, além de ocupar espaço. Uma inutilidade que deve ter-se originado na mente invejosa de Lúcifer, antes da guerra dos anjos, para escarnecer do seu Criador, de quem pretendia tomar o trono. Ainda mais que a terra, para todos os habitantes, tem sido um pouco desses lugares. A perplexidade divina é com relação ao descaso com o céu. Enquanto este é um lugar onde as satisfações não têm fim, o daqui não oferece mais do que efêmeras alegrias.
O rico é transportado e recebido por um coral de serafins acompanhado de uma orquestra da qual se sobressaem harpas e cítaras. Uma recepção a caráter para não lhe deixar a menor dúvida sobre onde se encontra.

 Deus ordena a um arcanjo, anjo de categoria superior, que fique à disposição e dê ao recém-chegado o que ele pedir.
– Seja bem-vindo. Mande as ordens.
 O homem lembra-se da empresa que queria comprar, e pede.
– Ei-la.
O rico com chocho entusiasmo, sentimento insípido que nos invade quando ganhamos o que não nos custou esforço, vê à sua frente um conjunto industrial.
– Agora preciso de capital de giro.
– Está aqui. – O anjo mostra-lhe o extrato de uma conta de banco, em nome dele, sem saldo.
-Está zerada, não tem saldo. – Reclama como se estivesse na terra. Chegou a temer uma passada de perna, golpe improvável logo ali com o indizível conceito que tem.  
– O saldo quem diz é você. Não há limite.
Espanta-se, duvida, e pede uma quantia bem superior às necessidades da empresa.
– Veja. – O anjo entrega-lhe outro extrato já com o valor pretendido. – Não vacile: aqui é o céu; tem tudo o que os homens desejam. Quando retornar à terra, não esqueça a acolhida que teve e espalhe. Vamos adiante?
– Que meus filhos estejam formados, saudáveis, riquíssimos, casados com pessoas ricas e belas, e netos maravilhosos que só tiram 10 nos melhores colégios e faculdades do mundo inteiro.
Logo passa diante dele a família incrível desfilando nos carros mais luxuosos, enquanto os netos ainda meninos acenam das janelas seus invejáveis boletins escolares e os adultos, teses de doutorado com o grau Magna Cum Laude.  
– E agora?
– Bem, já que na terra é quase impossível, e o senhor insiste, meu maior desejo é… – Aproxima-se do anjo e cochicha.
O arcanjo fecha as asas. Esse movimento somente é permitido aos do seu nível. Demonstra censura, asco, horror ao que ouve ou vê. Os anjos da guarda, por exemplo, não estão autorizados a reagir dessa maneira, porque são obrigados a manter as asas sempre abertas, para proteger aqueles que estão sob seus cuidados.
– O senhor enlouqueceu?!  Como pôde me falar uma coisa dessas?!
– Desculpe. Sou um homem religioso, mas sou humano, tenho minhas fraquezas. "Pedir tudo"!… entendi ao pé da letra.   
– Pedir tudo, sim, mas com discernimento. Esqueçamos esse incidente pecaminoso, e continuemos. Estou ouvindo.
– Quero ser presidente do país mais rico e poderoso do mundo, com todos os partidos me apoiando, e ser reeleito quantas vezes quiser.
Incontinenti, vê-se sentado no gabinete presidencial do tal país, para o beija-mão dos políticos de todos os partidos. Em seguida, o anjo abre a página da Constituição e mostra-lhe o capítulo que permite a reeleição do presidente, com garantia de vitória até o final dos tempos.
-Continuo à disposição, pode falar.
Falar o quê? Já não se lembra do que gosta, nem sabe o que quer. Está quase farto. Ah!:
– Preciso remoçar, ficando aí pelos quarenta, ser dono de uma fortuna incalculável, ter saúde para viver mais de 100 anos, sempre ativo, e que nenhuma dor, física ou moral, por menos intensa que seja , me atormente, nenhuma doença me acometa, e quero morrer dormindo.
 O anjo o faz sentir-se assim. O rico então boceja.  O coração confrange-se. A mente borbulha sensaboria.
– Estou aqui como seu servo e provedor. Mais alguma coisa?
– Nada; não quero mais nada.
– O que está achando do céu?
– Gostoso, mas empanzina. É isso: sinto-me empanzinado. O que eu quero mesmo é descer, e continuar pedindo lá de baixo.
 
* Paulo F. T. Moraes é jornalista e escritor

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