Cândida Oliveira
Uma criança de oito meses foi a óbito no bairro Industrial por conta da Leishmaniose Visceral (LV), também conhecida como calazar. Esse caso ocorrido em Aracaju este ano. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), 248 cães foram infectados em Aracaju este ano. Os dados mostram ainda que em 2011 foram registrados 26 casos em humano, 500 em cães e duas pessoas morreram.
De acordo com o coordenador do Programa de Controle de Leishmaniose Visceral, da SMS, Wilson de Oliveira, mais de 20 bairros já receberam a visita dos agentes de endemias. Eles instalaram armadilhas, a fim de identificar se há o mosquito transmissor, o flebótomo. "Caso seja identificado o mosquito, vamos coletar sangue dos cães e a aplicação do tratamento químico – inseticida, além do trabalho de conscientização da população. A cada mês, dois bairros são visitados e recebem as armadilhas", informa.
Até ontem, quinta-feira, a equipe de endemias estava no bairro Jardim Centenário. "Como ficou comprovado que há o mosquito, os agentes estão coletando sangue dos cães e aplicando o inseticida", explicou Wilson. Os bairros América e Novo Paraíso apresentaram casos e são os mais preocupantes.
Diferente do mosquito Aedes Aegypti, que precisa do ambiente limpo, a Leishmaniose, que mede de 2 a 3 milímetros, gosta de sombra e material orgânico em decomposição. A destinação incorreta do lixo, tão comum no país, é o chamariz perfeito para o vetor. Mas não é o único foco. Se é fácil achar o Aedes aegypti, que deposita suas larvas em locais onde há acúmulo de água, a missão é mais ingrata no caso do vetor da leishmaniose, cujas larvas podem estar escondidas na terra, ao lado de um arbusto ou de uma árvore frutífera.
As preferências e a capacidade de adaptação do vetor fazem com que a doença não esteja restrita a áreas de pobreza e sem saneamento, apesar do estigma. Mas essa é a população que continuará a ser a mais prejudicada, já que a doença é mais grave em pessoas com saúde debilitada e baixa nutrição.
Em Aracaju, em 25 bairros houve registro de Leishmaniose Visceral. "É preocupante porque o mosquito tinha característica rural até 1980, mas se adaptou à zona urbana", informou Wilson de Oliveira. O coordenador aponta o desmatamento como causa de migração. Cidades como Recife, Campo Grande e Goiânia também apresentam a LV.
No cão, a doença ainda não pode ser curada. A recomendação do Ministério da Saúde para esses casos é que o animal passe pelo processo de eutanásia.
"Mas nem todos passam pelo processo de eutanásia, pois alguns estão infectados e não apresentam sintomas, outros não são entregues, pois contam com o afeto dos donos. Nesse último caso, o mosquito pode retornar e infectar alguma pessoa", avisou o coordenador Wilson. No humano, a cura pode ocorrer, desde que a medicação seja ministrada rapidamente.
Vacina – Wilson contou que uma portaria do Ministério da Saúde não recomenda a vacina, diferente do Ministério da Agricultura, que aprova a aplicação em animais. Em casos de suspeita da doença em animais ligar para o Centro de Controle de Zoonoses 3179-3565/3564/3568. Já os casos em humanos, a pessoa deve ser encaminhada às unidades de saúde.
Brasil – Desde que a epidemia de dengue se intensificou no país, há alguns anos, todo mundo ouve o Ministério da Saúde anunciar medidas de combate ao mosquito Aedes aegypti. Mas pouca gente sabe o que tem sido feito para combater o Lutzomyia longipalpis, espécie de mosquito-palha responsável por uma doença que, de 2000 a 2011, causou mais mortes que a dengue em nove Estados, a leishmaniose visceral.
Também conhecida como calazar, a doença, que antes era limitada a áreas rurais e à Região Nordeste, hoje encontra-se em todo o território e, segundo especialistas, está fora de controle. Levantamento feito com base em números do Ministério da Saúde mostra que nos últimos 11 anos a leishmaniose provocou 2.609 mortes em todo o país, enquanto a dengue foi responsável por aproximadamente 2.847 mortes (veja quadro).


