Gabriel Damásio
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Uma operação deflagrada ontem de madrugada pelas polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal (PRF) desarticulou uma quadrilha que roubava cargas de caminhões que passavam pelas cidades de Umbaúba e Cristinápolis. O grupo, investigado há pelo menos um ano, usava diversas táticas para conseguir as mais variadas cargas e chegou a movimentar, segundo informações preliminares, cerca de R$ 10 milhões com a revenda e a negociação do que foi roubado ou furtado. Ao todo, nove pessoas foram presas e 27 mandados judiciais de prisão, busca e apreensão foram cumpridos.
A ação foi batizada de "Operação Caloris" e teve a participação de mais de 140 policiais, apoiados por fiscais da Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz) e soldados do Corpo de Bombeiros e do Exército Brasileiro. Durante todo o dia, eles percorreram vários locais das cidades de Tomar do Geru, Umbaúba e Cristinápolis – esta última apontada como base e sede da quadrilha. Os dois homens apontados como líderes do grupo, José Arnaldo de Aquino, 32 anos, e Joaldo Alves da Silva, 36, não foram encontrados em suas casas e teriam fugido da cidade, ao serem supostamente alertados por "olheiros" da quadrilha que avistaram a chegada dos policiais rodoviários.
Ainda em Cristinápolis, os agentes conseguiram prender Gilmar Guilherme Santos, 33, o "Sapo", apontado nas investigações como intermediário entre os chefes da quadrilha e os comerciantes que compravam as mercadorias roubadas. Além disso, ele e outros comparsas aliciavam caminhoneiros parados em postos de combustíveis da região para que estes vendessem ou entregassem suas cargas, em troca de dinheiro e outras vantagens. Os que recusavam a proposta eram assaltados e agredidos com muita violência, enquanto os criminosos levavam seus caminhões e desviavam as cargas.
Outra estratégia, conforme a polícia, era provocar acidentes nos trechos da BR-101 onde já aconteciam os assaltos, seja fechando a passagem dos veículos com carros ou até espalhando óleo na pista. Os caminhões perdiam o controle e, assim que tombavam ou capotavam, tinham suas cargas saqueadas pelos integrantes da quadrilha. Os produtos, que variavam de alimentos, higiene pessoal, materiais de construção até eletrodomésticos e informática, eram repassados a comerciantes da região, que por sua vez os revendiam a preços muito abaixo dos valores de mercado.
Os casos de furto, roubo e desvio se multiplicaram na região de Cristinápolis, alarmando as empresas transportadoras de todo o país por conta dos prejuízos financeiros e dos relatos dos caminhoneiros. As firmas consideraram o trecho sergipano como de "alto risco" e até proibiram seus motoristas de parar nas cidades da região, recomendando que elas seguissem direto para Aracaju ou Salvador. Foi das próprias transportadoras a iniciativa de denunciar tais crimes à PRF e a Secretaria de Segurança Pública (SSP/SE), que a partir daí começaram as investigações.
Prefeito detido – Ontem, além das casas e locais de trabalho dos acusados, a polícia esteve em empresas de comerciantes suspeitos de adquirir as cargas tomadas pela quadrilha. Alguns produtos foram recuperados, como cigarros, papel higiênico e açúcar. Outras mercadorias foram apreendidas por estarem sem a nota fiscal. Tudo foi levado para a sede do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), em Aracaju, em caminhões cedidos pelo 28º Batalhão de Caçadores (28º BC).
Cinco comerciantes da região foram detidos por suspeita de receptação onde prestaram depoimento. Um deles é o prefeito eleito de Tomar do Geru, Augusto Soares Diniz, o "Augustinho da Padaria" (PPL), que é dono de três supermercados da região. "Augustinho" não é citado em nenhum dos mandados judiciais, mas foi detido e levado para o Cope, em Aracaju, pois em um dos supermercados, sediado em Umbaúba, os agentes da PRF encontraram uma carga de fraldas descartáveis que não tinha nota fiscal. "Comprovadamente, essas fraldas são produto de carga roubada", confirmou o superintendente da PRF em Sergipe, inspetor Davi Artigas.
O prefeito eleito e os outros comerciantes, cujos nomes não foram confirmados, foram liberados no meio da tarde, mas vão responder a um inquérito da Polícia Civil. Seus respectivos estabelecimentos foram fechados após a chegada da polícia. Já os outros suspeitos de ligação com a quadrilha estão sendo procurados. No meio da "Operação Caloris", outras pessoas foram presas em flagrante por porte ilegal de arma, tráfico de drogas e por suspeita de roubos de motocicletas. Até o início da manhã, foram apreendidos 600 gramas de crack, 150 gramas de cocaína, uma pequena quantidade de maconha, uma balança de precisão, um revólver calibre 38 e 20 munições.
O nome da operação se refere à Bacia Caloris, uma cratera de 1.300 quilômetros de extensão que existe no planeta Mercúrio e teria se formado a milhares de anos, quando o planeta foi atingido por um asteróide. Mercúrio, por sua vez, é um deus da mitologia romana considerado como protetor do mercado, do dinheiro e dos lucros.

