O ex-presidente estadual do PT, Sílvio Santos, se transformou numa espécie de "coringa" na administração do governador Marcelo Déda. No ano passado, ele não titubeou em renunciar ao cargo de vice-prefeito de Aracaju para se transformar em secretário de Estado da Saúde. Permaneceu na função por poucos meses e não conseguiu resolver os problemas mais graves da pasta. No final do ano foi transferido para a chefia da Casa Civil e passou a integrar o "Núcleo de Governança", criado por Déda em função de seus problemas de saúde.
A coordenação política do governo também passa por um turbilhão, desde que a bancada governista deixou de ser maioria na Assembleia Legislativa. Sílvio Santos acompanhou a rejeição dos projetos do Proinveste já na função, mas ficou otimista com a manutenção, quase na íntegra, do Orçamento Geral do Estado para 2012. Nesta entrevista, Sílvio Santos manifesta grande otimismo num entendimento com a oposição na Assembleia e faz previsões.
JORNAL DO DIA – Secretário, o senhor acha que o governo tem como recompor a maioria na Assembleia Legislativa? Nesse sistema político brasileiro, é possível administrar sem uma maioria parlamentar?
Sílvio Santos – De fato, torna-se muito difícil governar sem maioria no Parlamento, especialmente quando o clima é de confronto conforme vimos em 2012. Por isso nosso primeiro movimento foi restabelecer o diálogo, as conversas para superar o estado de beligerância até então existente. Acho e estamos trabalhando para que o governo recomponha sua base de sustentação, e mais do que isso, retome num outro nível seu relacionamento com a oposição.
JD – O senhor já informou que o Proinveste será reencaminhado ao legislativo no dia 21 de janeiro. Estão sendo realizadas novas conversas para garantir a aprovação dos projetos? O governo vai atender exigências de deputados?
SS – O governador Marcelo Déda, ouvindo o apelo da presidenta Dilma, decidiu reenviar o projeto em convocação extraordinária agora no mês de janeiro. Estamos discutindo individualmente com deputados cada ponto questionado no primeiro debate. A questão das obras, os recursos destinados, o possível remanejamento de obras e ou ações elencadas no Proinveste, etc. A ideia é suprimirmos todas as dúvidas existentes.
JD – Antes do recesso parlamentar o senhor fez uma visita a AL e conversou com deputados. Sente que há clima para uma recomposição da maioria?
SS – Sim. Estive na Assembleia e fui muito bem recebido por todos. A presidente deputada Angélica Guimarães tem sido muito atenciosa, conversei também com os líderes da oposição, os deputados Venâncio Fonseca e Augusto Bezerra, e pude perceber que há um ambiente favorável para a melhoria das nossas relações. Na bancada do governo o sentimento é também muito positivo. Todos são favoráveis ao diálogo. Temos, portanto, as condições objetivas para um novo momento nas relações executivo e legislativo.
JD – Secretários e aliados reclamam que os secretários da área econômica, principalmente o da Fazenda, José Andrade, concedem declarações duras como se o governo estivesse parado. A crise econômica do governo é realmente grave?
SS – Primeiro é preciso entender a crise. A crise econômica é de caráter mundial. Todos, principalmente vocês da imprensa tem acompanhado a situação dramática que passam os países da Europa, alguns como a Grécia, literalmente quebrados. Espanha, Portugal entre outros com um índice de desemprego que supera os 25% e não foi possível ainda enxergar saída. O Brasil, graças a uma política econômica e social consequente que vem desde o governo Lula e continua com Dilma, tem enfrentado a crise de forma que ela não afete a nossa economia e a vida das pessoas. Porém, algumas medidas como a isenção do IPI para a indústria automobilística se por um lado é boa porque mantém o emprego e a economia aquecida por outro lado cria dificuldade para os estados mais dependentes do FPE como é o caso de Sergipe. Em 2012 perdemos R$ 250 milhões em receitas desse fundo. Claro que isso nos afetou dramaticamente. Mas não é só Sergipe. Em 2012, vinte dos vinte e sete estados tiveram dificuldades para pagar pessoal. Nós pagamos os salários e o décimo terceiro no calendário e os investimentos em obras estruturantes não sofreram consequências. Então, a crise preocupa. Iremos adotar medidas mais fortes ainda de austeridade em várias frentes, mas o estado não vai parar e continuará investindo para o nosso desenvolvimento econômico e social.
JD – O que os prefeitos recém-empossados podem esperar na relação com o governo do Estado? O governo pode desenvolver projetos conjuntos com adversários políticos?
SS – O governador Marcelo Déda certamente passará para a história como o mais republicano dos governadores que já houve em Sergipe. É claro que continuaremos trabalhando em todos os municípios do estado porque o compromisso do governador é com o povo sergipano, sem fronteiras ideológicas e ou partidárias, mas é bom não confundir republicanismo com ingenuidade. O governador Marcelo Déda é um político na acepção da palavra. Com P maiúsculo. Mas de ingênuo não tem nada.
JD – como o senhor acha que deve ser a parceria com o prefeito João Alves Filho: apenas administrativa ou também política?
SS – Nós temos projetos políticos, concepções, ideologias diferentes. Certamente nas questões relativas a esses temas estaremos em posições opostas. Já nas questões administrativas defendo que o governo do estado estabeleça parcerias em realizações que desenvolvam nossa cidade e que beneficiem a nossa população. De qualquer forma, é bom entender que a política não é um instrumento para prospectar inimigos eternos. Da mesma forma que a política não pode fechar a porta para que aliados não saiam, não pode fechar a janela para que adversários não entrem.
JD – Qual deve ser a principal pauta do governo em 2013? Há chances de novos investimentos?
SS – Nós ainda apostamos no bom senso e na aprovação do Proinveste. É a grande chance que nós temos para preparar o estado de Sergipe para o futuro. Tornar, a partir das obras estruturantes desse projeto, o estado mais competitivo economicamente e criar as condições para seu desenvolvimento e a melhoria das vidas dos sergipanos. Mas, se a intransigência vencer, nós temos plano B. O governo vai continuar investindo, naturalmente numa escala menor, mas Sergipe não vai parar.


