Rian Santos
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O orgulho de macho nunca me permitiu usar a fantasia cabisbaixa do Pierrot. Sonhar não custa nada. Se o propósito da brincadeira consistia em atender aos caprichos da imaginação, que as Colombinas se derretessem sob o domínio de meu sorriso de plástico. Acontece que a diáspora carnavalesca, com seus engarrafamentos de alegria estridente e ruas tomados por uma epidemia ofegante, já não me apetece. Deixo a fantasia do fanfarrão bem disposto que nunca fui guardada no armário e desfilo uma melancolia tranquila pelas ruas abandonadas da capital.
Aracaju despovoada não é só o retorno à serenidade e quietude mascaradas pela falta de educação dos cruzamentos e salas de cinema da província. É a reconciliação com um tempo vagaroso, mais apropriado à constante preguiça que me anima, condizente com a geografia dos mangues atolados de merda que espalham a pestilência pela Beira Mar. Os relógios como adornos, tão dispensáveis quanto os frangalhos circenses e a penúria satisfeita da euforia num cenário desprovido de confetes e serpentinas, não marcam nada. Os humores do corpo ditam os horários. Esbórnia maior, pra quê?
A Prefeitura garante que o Carna Caju 2013, promovido na Orla de Atalaia, será lembrado como marco de um grande resgate cultural em comemoração ao período carnavalesco, mas isso é coisa de gente que tem saudade do que nunca viu. Do Rasgadinho ninguém fala. Aqui, somos todos ruins da cabeça, doentes do pé.
O que mais explicaria nossa sede implacável pelos pracatuns baianos? Mesmo nos centros da folia, o carnaval de verdade, ironicamente, só existe nas cismas alimentadas por aquela gente sem animação que promove os eventos. Mercantilizaram a orgia. Não existe Arlequim cheio de manha que se dê bem sem abadá. A festa da carne foi atropelada pelo trio elétrico, qualquer dia o legista assina o obituário.
Eu, Pierrot resignado, não acredito mais na satisfação suada e caricata das peças publicitárias. Quem quiser que se conforme com a imagem intermitente dos tubos de televisão. De minha parte, aproveito a debandada dos selvagens e desfruto o horizonte aberto à vista.


