*Anderson Bruno
O No ano de 2002, o diretor russo Aleksandr Sokúrov realizou ‘A Arca Russa’. Já desde o lançamento considerada uma obra prima, a produção ganhou notoriedade no mundo todo pela excelência de sua direção. Gravado totalmente num único plano sequência, ‘A Arca Russa’ revela com primazia, nos seus 96 minutos, a história do maior país do mundo. O filme ganhou vários prêmios e ajudou a sedimentar o nome de Aleksandr Sokúrov dentre os maiores diretores da atualidade.
Seu novo lançamento, ‘Fausto’ (Rússia, 134 min, 2012) ganhou, no ano passado, o Leão de Ouro no Festival de Veneza e tem base e fundamento na obra literária homônima de autoria do escritor alemão Goethe.
Este é o último de quatro filmes lançados por Sokúrov, fechando um ciclo de estudo
cinematográfico sobre o poder. ‘Molock’ (1999), sobre Hitler; ‘Taurus’ (2000), sobre Lênin; e ‘O Sol’ (2005), sobre o imperador japonês Hirohito, são os três longas antecessores a este ‘Fausto’.
Neste último lançamento, os questionamentos filosóficos sobre a alma humana, dentro da metafísica, é evidenciada através dos pensamentos incessantes de Fausto (Johannes Zeiler). Ele trabalha como médico na dissecação de corpos e precisa entender essa separação entre corpo e alma, no momento e pós-morte. Na pauta ainda entra os questionamentos sobre Deus, num eterno conflito entre ateísmo e misticismo, para se chegar a uma direção que o leve a alguma conclusão.
O tão esperado direcionamento aparece, mas de uma forma um pouco questionável, quando um estranho homem chega até Fausto oferecendo ajuda. É o Mefistófelis da literatura. O diabo para nós mortais.
É impressionante como a filosofia, há séculos antes de Cristo, já havia nascido com a incumbência de estudar o homem e suas dúvidas, ânsias, virtudes, desejos e qualidades. ‘Fausto’ foi finalizado por Goethe em 1832. Cento e oitenta anos depois é filmado para o cinema com o mesmo teor de profundidade de questionamentos humanos, como a existência do céu, do inferno e ambos os representantes, bem como armadilhas sentimentais exaltadas no amor com suas repercussões psíquicas. O ser humano pode ser capaz de vender a alma ao demônio e não acreditar numa cobrança deste? Para responder, precisaríamos acreditar no demo. São esses conflitos os movimentos tortos seguidos por nosso protagonista em direção à revelação de suas perguntas, mas que, uma vez sabendo, não poderá voltar atrás. Mesmo se arrependendo.
Uma trilha de fundo acompanha quase sempre o desenrolar dessa história medonha, tratada até com um discreto bom humor e sempre com um admirável trabalho de fotografia e constituição cênica.
‘Fausto’, antes de ser literatura, foi conto popular. Tratava-se da lenda alemã de um
médico que vendia sua alma pro diabo, lá pelo século XV. Seu aspecto cenográfico nos remete à época, reforçado na palheta de cores. As locações são frias, sem muita alegria. As lentes fotográficas captam a atmosfera lúgubre. O resultado é um ambiente claustrofóbico e onírico, por vezes.
Alexandr Sokúrov encerra sua quadrilogia sobre o poder buscado pelo homem. Sexo e poder quase sempre estão juntos. São visíveis as referências sexuais em ‘Fausto’. Tanto no cartaz quanto num dos primeiros planos do filme.
A redenção é o que fica, penso eu, depois de ver um homem vender a alma ao demônio. Um experimento intrigante enquanto obra fílmica. A plateia acostumada a ver longas-metragens mais ligeiros e dinâmicos vai achar tudo muito enfadonho. O filme é arrastado. Para quem vai em busca de uma produção filosófica, está aí a barganha.
*Crítico audiovisual


