Ante o semáforo

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nos idos de 68, um jovem francês pichou um muro e suas palavras viajaram até gastar as asas. Eram palavras aladas. Caminhando pela Avenida Barão de Maruim, um outdoor depois do outro, pergunto o que os muros da cidade dizem de minha geração. As intervenções urbanas realizadas pelos fotógrafos Victor Balde e Arthur Soares (Snapic) não falam por todo mundo, mas respondem à minha angústia. Não nos interessa o mutismo das paredes brancas. Escrevemos aos berros a história de nossos dias.

Focado no registro da cena sergipana, o trabalho da Snapic ganhou materialidade com o lançamento do livro Música pra Ver, ano passado, quando as paredes da galeria Jenner Augusto foram cobertas com os capítulos mais felizes da música sergipana. De quebra, a exposição ainda contou com a colaboração do ilustrador Thiago Newman (aka Cachorrão) e dos artistas visuais Duardo Costa e Fábio Sampaio, convidados a deixar a própria marca em algumas fotografias.

Quatro paredes, no entanto, não comportam o mundo.  Balde queria alcançar mais gente e resolveu submeter a parceria às intempéries do tempo. "O projeto das intervenções surgiu de uma paranoia. Não gosto de imaginar a apreciação do trabalho feito com a Snapic limitada a uma pessoa na frente do computador, ou às raras oportunidades em que expomos em galerias de arte ou ganhamos algum espaço em jornais e revistas. A rua é o meio mais democrático de todos, acessível a qualquer pessoa. Um muro branco é  um desperdício.

Sol e chuva. Barulho, tráfego e arte. No que depender de Balde, as pessoas conservarão os olhos abertos, como se postadas diante do semáforo.

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