Milton Alves Júnior
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Com ordem judicial, na manhã de ontem a Prefeitura de Aracaju deu início a operação de reintegração de posse das casas populares construídas no bairro 17 de Março que nos últimos dez meses foram invadidas por 826 famílias de forma irregular. Contando com um efetivo de 400 militares, a ação teve início por volta das 5h30 quando as primeiras viaturas cercaram a área e os agentes judiciais começaram a solicitar que as pessoas retirassem os bens da parte interna das residências. Apesar da indignação por parte das famílias, a reintegração foi realizada de forma pacífica.
Atendendo ao pedido da justiça sergipana, muitas pessoas ainda na noite da última quarta-feira, 20, começaram a sair do local em busca de um novo abrigo. Temendo uma opressão policial, o catador de latinhas Josival Pereira disse que na manhã de ontem só retornou ao local para ajudar a alguns amigos. O medo era que a força da polícia fosse utilizada e os filhos acabassem sendo atingidos. "Essa foi a minha preocupação. Se a prefeitura não tem atenção em nos conceder uma moradia digna, certamente ela também não vai ter piedade em nos retirar na força. Uma vez uma bala de borracha ou choque dado em minha esposa, ou filho, ninguém vai tirar", alegou.
Pensando diferente do vizinho Josival, o ex-auxiliar de obra Rodrigo dos Santos decidiu permanecer na casa até que a operação fosse de fato iniciada. Para ele, muitos ainda possuíam a esperança de que uma liminar poderia surgir e evitar a retirada. "Estou desempregado e sem lugar pra ir com meus três filhos e esposa. O jeito foi esperar pra ver se essa triste realidade realmente iria acontecer com a gente. Como a esperança é a última que morre, ela morreu a partir de agora que não sei pra onde ir", declarou. Na tentativa de barrar a entrada da polícia na região, pedras foram colocadas nas ruas.
Apesar da ‘tranquilidade’, o coronel Jackson Nascimento, responsável pela operação policial disse que o trabalho só constatou razoável facilidade em virtude de um esquema elaborado antes do início da reintegração. Surpreendendo muitos moradores, a ação militar foi iniciada ainda na noite de quarta-feira. "Até o momento tudo está ocorrendo de forma pacífica. Ontem tivemos a apreensão de 150 pneus que seriam queimados hoje, certamente esse trabalho realizado de forma ostensiva contribuiu diretamente para a pacificação desta quinta-feira", garantiu. Com o objetivo de comprovar que nenhum policial iria utilizar desnecessariamente da força, toda a ação foi monitorada através de câmaras pela Secretaria de Estado da Segurança Pública.
Pela administração municipal, em parceria com o comando da PM, um acampamento foi montado na região onde estava sendo realizado um cadastro de pessoas que desejam receber de forma legal uma casa popular. Até o final da tarde de ontem, mais de 300 fichas já haviam sido preenchidas. Sem contar com um espaço que possa comportar todas as famílias, a Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal da Família e da Assistência Social, apenas está garantindo encaminhar e armazenar os móveis das famílias em um galpão que fica nas proximidades do aeroporto até que todos encontrem um novo lugar para morar.
Continuidade – Como no dia de ontem apenas 70% das casas foram desocupadas completamente, o trabalho de reintegração terá sequência no dia de hoje. De acordo com o major Paiva, a perspectiva é que até as 13h todas as residências tenham sido desapropriadas. "Essa é a nossa meta. Vamos retornar com o mesmo efetivo e torcer para que esses 30% não nos cause contratempos", declarou. Quem ainda não foi cadastrado pode procurar o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), localizado na avenida principal do bairro Santa Maria, nº 2577, e se inscrever em programas sociais. Conforme dados da Secretaria de Assistência Social, a fila de espera por moradia popular ultrapassa três mil pessoas.


