O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em Sergipe, vê com entusiasmo as manifestações de rua que têm acontecido no Brasil nas últimas semanas. "Sem dúvida, a força do povo ocupando as ruas fez com que muitos gestores públicos acostumados a subestimar a população engolissem a arrogância", analisa Rubens Marques, sindicalista estanciano conhecido como Professor Dudu.
Para ele, o diálogo da presidenta Dilma Rousseff com os trabalhadores deixa muito a desejar. "Acho que o governo Dilma precisa dialogar melhor com o movimento sindical e movimento social no sentido de conquistar apoio das ruas para efetuar as grandes reformas que o Brasil precisa", diz Dudu, fazendo criticas também a atuação do governo Marcelo Déda no trato com os trabalhadores.
Sobre as mobilizações organizadas pelas centrais sindicais no dia 11 desse mês, Professor Dudu mostra que a pauta de reivindicações é farta e que os trabalhadores não irão parar de se manifestar enquanto não forem atendidos. Alguns dos pontos são: redução da jornada de trabalho sem redução de salário de 44 para 40 horas semanais, fim do fator previdenciário, 10% do PIB para a educação, fim dos leilões dos poços de petróleo, combate às terceirizações, reforma política, entre outras. Leia a íntegra da entrevista:
Jornal do Dia – Essa onda de manifestações pelo País começou com os jovens do Movimento Passe Livre, a nível nacional, e o Não Pago, no Estado. Na última quinta-feira, as centrais sindicais decidiram sair às ruas. As manifestações surpreenderam os dirigentes sindicais?
Professor Dudu – Sim, mas não só o movimento sindical como também toda sociedade, e o que mais nos surpreendeu foi a força da mobilização pelo facebook, bem diferente dos métodos usados pelo movimento sindical.
JD – Um dos objetivos concretos dos primeiros atos, a suspensão do reajuste nas tarifas de ônibus, foi conquistada inclusive em Aracaju. O senhor acha que isso representa força do movimento?
Dudu – Sem dúvida, a força do povo ocupando as ruas fez com que muitos gestores públicos acostumados a subestimar a população engolissem a arrogância e recuassem no aumento das tarifas e começassem a discutir as reivindicações por transporte de qualidade e tarifa justa que vinham das ruas.
JD – As pautas do movimento sindical são diferentes das do movimento social ou é possível uma unificação?
Dudu – Parte da pauta é diferente sim, mas a maioria dela converge, tanto é que as centrais conseguiram convencer o movimento social a participar da greve geral do dia 11, que foi um absoluto sucesso. As atividades foram construídas pelas centrais em conjunto com o movimento social, a exemplo do MST, Levante Popular da Juventude, Não Pago, MOTU, Movimento dos Sem Casa, movimento de mulheres, de negros, de Direitos Humanos etc.
JD – Neste momento, quais são as principais reivindicações do movimento sindical?
Dudu – Antes de tudo, colocar a pauta da classe trabalhadora na mesa da presidenta Dilma, do Congresso Nacional, dos governadores, prefeitos, assembleias legislativas etc. A pauta patronal tem avançado em detrimento da nossa. Os empresários de muitos setores têm conquistado desoneração de folha de pagamento, isenção de IPI, ICMS e outros tributos, ou seja, não abrem mão do lucro minimamente e nós terminamos pagando a conta, pois sem arrecadação de impostos não há como investir em políticas públicas. Os principais pontos da nossa pauta são: redução da jornada de trabalho sem redução de salário de 44 para 40 horas semanais (geraria 2,5 milhões postos de trabalho), fim do fator previdenciário, 10% do PIB para a educação, fim dos leilões dos poços de petróleo, fim das demissões imotivadas no setor privado, combate as terceirizações, reforma agrária e urbana, reforma política, reforma fiscal, valorização dos salários, paridade para os aposentados etc.
JD – O governo Dilma também foi surpreendido com os protestos. Qual a avaliação que a CUT faz do governo e o que precisa mudar nas relações com os movimentos sociais e sindicais?
Dudu – Acho que o governo Dilma precisa dialogar melhor com o movimento sindical e movimento social no sentido de conquistar apoio das ruas para efetuar as grandes reformas que o Brasil precisa. Sem o apoio popular as propostas de reformas continuarão nas gavetas do Congresso Nacional. Eu defendo que muito melhor do que fazer pacto com grupos políticos oportunistas a partir da barganha de cargos como tem acontecido, é fazer pacto com o povo e colocar na berlinda quem for contra por interesse corporativo. O diálogo de Dilma com os trabalhadores deixa muito a desejar.
JD – E o governo Déda, vem correspondendo aos anseios dos servidores públicos?
Dudu – No início do seu primeiro governo, Déda acertou ao instalar uma mesa permanente de negociação para dialogar com os sindicatos de servidores públicos, depois abandonou a ideia e isso provocou e tem provocado várias greves. É importante destacar que a instalação da mesa foi proposta da CUT, ainda quando Antônio Gois era presidente. É incompreensível que um governador que conhece o movimento sindical como Déda viva em constante conflito com os sindicatos e os sindicalistas como ele vive.
JD – Na quinta-feira, o protesto acabou na porta da TV Sergipe, afiliada da Rede Globo. Qual o objetivo dessa ação?
Dudu – Democratizar as comunicações, este é o grande objetivo! Há muito os movimentos de trabalhadores e os movimentos sociais como o Intervozes, o Levante Popular da Juventude, o MST, o Sindicato dos Jornalistas, a própria CUT e outros lutam por uma descentralização da mídia no Brasil, lutam por direito a ter suas vozes e pautas expressadas nos meios de comunicação sem tanta manipulação. A comunicação no nosso país é um grande monopólio privado e nas mãos de umas poucas famílias. Quem melhor simboliza a opressão desse monopólio é a Rede Globo, consequentemente, aqui, a TV Sergipe. Em todo o Brasil esse monopólio midiático está sendo contestado. Por que só políticos, empresários e grupos religiosos podem ter concessões de rádio e de TV? Cadê as rádios e TVs dos trabalhadores e dos movimentos sociais para que tenham as suas vozes ampliadas e respeitadas, para que as verdades, que muitas vezes a grande mídia esconde ou manipula, sejam reveladas? Como, por exemplo, o caso escandaloso de sonegação fiscal feita pela Rede Globo. Quase R$ 1,2 bilhão em valores de hoje. Alguém viu este escândalo na mídia? Está vendo agora porque o povo está nas ruas e nas redes sociais denunciando! Por isso é tão necessário que a pauta da democratização da comunicação seja prioritária no governo Dilma! Os patrões e empresários podem se expressar e impor a suas pautas e as suas verdades de norte a sul, mas os trabalhadores e os movimentos sociais não?! Está mais que na hora de mudar isso! O protesto foi para contestar toda essa realidade, e vai continuar em todo o Brasil, até que o governo federal acene com mais democracia na mídia e uma legislação que atenda aos interesses mais amplos da sociedade, e não de um pequeno grupo de iluminados ligados ao grande capital, a igrejas e ao velho coronelismo, aqui muito fortemente representado pela família Franco, ligada ao latifúndio canavieiro.


