Gabriel Damásio
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O clima de confronto aberto voltou a explodir na Polícia Civil, com novas manifestações e trocas de acusações entre o Sindicato dos Policiais Civis de Sergipe (Sinpol) e a cúpula da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Ontem pela manhã, um grupo de 70 agentes e escrivães do órgão fizeram um protesto em frente ao Departamento de Atendimento aos Grupos Vulneráveis (DAGV), na Rua Estância, centro da capital. Durante cerca de três horas, os manifestantes se concentraram em frente ao portão principal e bloquearam a entrada, o que retardou o início do expediente e impediu a entrada de servidores e de populares que chegavam ao local para prestar queixas.
Para não prejudicar o atendimento, o expediente do DAGV foi remanejado para a Delegacia Plantonista (Centro) e voltou ao local de origem no final da manhã. À tarde, a superintendente da Polícia Civil, Katarina Feitoza, informou que os participantes do protesto cometeram o crime de "obstrução de serviço público", previsto no Código Penal, e vão responder a um inquérito a ser aberto pela Corregedoria de Polícia Civil (Corregepol)."A manifestação foi completamente absurda, porque obstruiu um serviço importante para a população. A Corregedoria tomou todas as providências e esses policiais que participaram do movimento vão responder criminalmente e administrativamente", disse a delegada.
O Sinpol, por sua vez, afirma que o protesto de ontem foi em protesto contra a transferência do agente de polícia Adilton Menezes da Paz, que estava lotado no DAGV e foi mandado para a Delegacia Regional de Maruim. O presidente do sindicato, Antônio Moraes, acusou a cúpula da SSP de tomar a medida por perseguição, já que Adailton é um dos policiais que aderiram à operação padrão iniciada em 7 de outubro pela categoria. Segundo o sindicalista, a transferência de Adilton foi uma punição recomendada pela diretora interina do DAGV, delegada Érika Magalhães, porque ele recusou-se a dirigir uma viatura do departamento, alegando não ter o Curso de Habilitação para Veículos de Emergência, obrigatório pelo Código Brasileiro de Trânsito.
"Adilton e muitos outros colegas policiais civis estão se recusando a agir fora da lei. Ao invés de discutir a necessidade de dar essa habilitação aos policiais, as delegadas do DAGV recomendaram a remoção do colega Adilton e isso foi encaminhado nesta semana ao Conselho Superior de Polícia. O nosso representante chegou a pedir vista do projeto, mas isso lhe foi negado. Ou seja: estão armando para tirar um colega daqui e colocá-lo no interior. O interior precisa de profissionais como Adilton? Precisa, mas não de forma arbitrária, pois remoção não é punição", afirmou Moraes.
Érika não comentou a afirmação do presidente do Sinpol, mas as explicações foram dadas pela superintendente Katarina Feitoza, que negou qualquer perseguição na medida, mas apontou problemas de indisciplina. Segundo ela, o agente deixou de cumprir várias ordens de serviço passadas pelos superiores. "Havia várias ordens de serviço que ficaram acumuladas e algumas delas se referiam a ocorrências importantes. A diretoria avaliou que o policial não apresentava o perfil operacional adequado para lidar com o público do DAGV, que são as crianças, os adolescentes e idosos vítimas de violência", frisou Katarina, afirmando ainda que as transferências de servidores entre as delegacias e outras unidades da Polícia Civil são medidas de rotina, as quais são tomadas para "oxigenar" o andamento do serviço policial.
Mensagem comprometedora – O protesto dos policiais foi marcado por um tom muito forte. Os policiais se posicionaram em frente ao portão de entrada do DAGV e começaram o piquete por volta das 6h, quando um carro de som foi ligado. Nos discursos, Antônio Moraes protestava contra a transferência de Adilton, classificando-a como um assédio moral" e chegou a referir-se às delegadas do departamento como "patricinhas do DAGV", além de fazer duras críticas aos delegados de polícia e à cúpula da SSP. Uma viatura do próprio departamento chegou a ser estacionada em frente à porta de acesso e muitos funcionários que chegavam ao local foram barrados.
Foi o que se viu em um vídeo gravado pelas delegadas Mariana Franco Diniz e Renata de Abreu Aboim, que chegavam de carro ao DAGV e tentaram entrar na unidade por duas vezes. A segunda tentativa foi registrada. Antônio Moraes e outros sindicalistas aparecem com os braços cruzados, enquanto Mariana, ao volante, pedia que a entrada fosse liberada. "Deixe-nos entrar, por favor! A gente precisa trabalhar. Moraes respondeu com um gesto de negativa, balançando a cabeça e com expressão de indiferença. "Tá fechado, é? Não vai ter expediente? Ah, tá, muito obrigada", questionou a delegada, com a voz levemente irritada.
Após o protesto, os jornalistas receberam uma mensagem que tinha sido enviada por Moraes, via telefone celular, a vários policiais civis que integram a operação padrão. Nela, o sindicalista teria incitado os agentes e escrivães a tomarem atitudes mais violentas para pressionar os delegados, cuja referência é feita com ameaças e até palavrões. "Tá na hora de alguém tomar um tiro, apanhar, tocar fogo em viatura. Tá na hora de tocar o f…-se (sic). Uma desgraça precisa acontecer para esses DELEGADOS F… DAS P… (sic) respeitarem a gente. Eu quero quebrar a cara do piloto do avião. Deixa ele fazer mais uma gracinha. Se não nos respeitam na legalidade, que nos respeitem na força.
Preciso com urgência de uma reunião com TODOS desse grupo. (…) Precisamos tomar algumas atitudes. Nosso colega Adilton está sofrendo ASSÉDIO MORAL!", diz a íntegra da mensagem atribuída a Moraes.
Em entrevista à TV Sergipe, no final da tarde, o presidente do Sinpol disse que a mensagem foi escrita para descobrir a existência de um possível "X-9" (delator, na gíria policial) dentro da organização do movimento. "A nossa intenção era fazer uma mensagem para que esse ‘X-9’ levasse essa informação até a cúpula da SSP. Infelizmente, essa pessoa fez isso e mostrou que não merece a nossa confiança", justificou Antônio. A delegada Katarina Feitoza classificou a mensagem como "absurda" e não quis se estender em comentários sobre ela, mas disse que ela também será tema de inquérito na Corregepol.
A operação padrão foi convocada no mês passado pelo Sinpol, em protesto contra o pagamento de um retroativo salarial aos delegados, equivalente aos reajustes salariais de 5% que não foram pagos entre 2008 e 2011. Os agentes exigem receber o mesmo pagamento, mas o pleito dos delegados foi considerado legal pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).


