Música de preto é coisa séria

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Thiago Ruas não se prestou ao ridículo de levantar o punho fechado, num mimetismo pervertido de resistência. Não precisa desse tipo de artifício. A música da Oganjah é um gesto de empatia e solidariedade genuíno, devotado aos lutadores de carne e osso – gente cujo heroísmo consiste em colocar os pés no chão antes do galo cantar e carrega nos bolsos os cobres devidos à alvorada. Todo santo dia.

A vivência dos pequenos não é estranha ao universo das canções reunidas no EP Doença da Cabeça, que a banda lança esta semana, no palco da Che Petiscaria. Muito ao contrário. Um naipe de metais espertíssimo remedia o martírio. Hoje, o discurso regueiro, calcado em certo messianismo e nas feridas da desigualdade, pode soar forçado (embora o apreço manifestado pela palavra me comova sinceramente, é preciso admitir o desbotamento essencial que converte o sagrado em pedra e barro). Mas ninguém toma aos calos o sabor da experiência. Música de preto é coisa séria.

A ideia enterrada nas cinco faixas do registro não permite equívocos. A Oganjah ainda é a mesma banda que eu entrevistei há quatro anos, sob o pretexto de celebrar o Dia da Consciência Negra. Composições como "Até quando?" e "Mulungu" (as minhas preferidas) evocam o depoimento então prestado por Thiago, para quem a construção da cidadania exige um esforço minucioso e cotidiano.

Ele falou como agora canta: com a propriedade de um dos mantenedores do projeto CHAMA, responsável por diversas oficinas de cunho social e educativo que interferem de maneira efetiva na auto-estima dos moradores do Pantanal. "Nosso envolvimento com a militância social é anterior à música, mas é muito bom conciliar as duas coisas. A música também pode ser um instrumento para a educação das pessoas, e para nossa própria conscientização. Quando eu canto, também falo pra mim. É um exercício".

Que não se cale nunca.

Oganjah lança ‘Doença da Cabeça’ na Che Petiscaria:
Sexta-feira, 29 de novembro, a partir das 23 horas

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