Chuvas fortes no Centro-Sul e no Sertão causam estragos

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Fortes chuvas ocorridas entre a noite de sexta e a madrugada de sábado provocaram estragos em pelo menos oito municípios das regiões do Sertão e do Centro-Sul. Os piores foram registrados em Nossa Senhora da Glória (Sertão), que, de acordo com a meteorologia, teve um volume de chuvas cinco vezes maior que a média considerada normal para o período. Em apenas duas horas, foram cerca de 150 milímetros de água – o total previsto para os próximos três meses. O resultado disto traduziu-se em vários alagamentos registrados em boa parte das ruas da cidade, que foram agravadas com a ocorrência de vendavais e trovoadas.

O principal bairro atingido foi o do Cemitério, onde o córrego que atravessa a cidade transbordou. As águas arrastaram uma grande quantidade de lama, lixo, entulho e restos de vegetação, cujos rastros podiam ser vistos ainda na manhã de ontem. No próprio Cemitério Municipal de Glória, o muro foi derrubado e algumas sepulturas ficaram descobertas, deixando os caixões expostos ou até removidos de seus lugares. Parte da estrada de acesso à cidade vizinha de Monte Alegre de Sergipe foi interditada, porque um trecho da pista cedeu. Crateras também foram abertas em trechos de algumas ruas.

Com os ventos fortes, dezenas de casas e lojas comerciais foram destelhadas, deixando muitas famílias desabrigadas – o total ainda não tinha sido contabilizado até o final da manhã de ontem. Árvores, galhos e torres de telefonia – incluindo a que fornece sinais para provedores de internet da região – também caíram e romperam fios de alta tensão, deixando parte dos municípios sem energia elétrica, telefone e internet. Houve inundação também no Hospital Regional de Glória, onde duas alas foram invadidas pela água. O atendimento precisou ser suspenso e vários pacientes tiveram que ser transferidos às pressas para áreas mais seguras.
Uma equipe da Defesa Civil Estadual foi enviada na manhã de ontem a Glória, para fazer um levantamento detalhado dos estragos e avaliar a possibilidade de decretação de estado de emergência. Até segunda-feira, um balanço mais detalhado será divulgado. Apesar de uma menor intensidade dos estragos, chuvas acima do normal também foram registradas nas cidades de Carira, Poço Redondo, Monte Alegre e Canindé do São Francisco (no Sertão), além de Riachão do Dantas, Poço Verde, Simão Dias e Tobias Barreto (no Centro-Sul). Choveu forte igualmente em Itabaianinha (Sul), onde um muro foi derrubado no centro da cidade.

Houve também relatos de tremores de terra nas cidades de Aquidabã e Graccho Cardoso, cujos moradores ficaram bastante assustados. Os tremores aconteceram no início da madrugada e, conforme os relatos, duraram cerca de cinco segundos e não chegaram a causar destruição. Foi o segundo fenômeno ocorrido neste ano nas mesmas cidades. O primeiro aconteceu em 23 de outubro e foi um efeito de outro tremor mais forte ocorrido no interior do Rio Grande do Norte. Segundo geólogos, este primeiro incidente alcançou o índice de 3,5 na Escala Richter e foi causado por uma falha geológica descoberta nas placas tectônicas da região do Médio São Francisco.

Instabilidade – A causa destas tempestades pode ter relação com as intensas chuvas que estão causando estragos piores em cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. De acordo com o meteorologista Overland Amaral, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), as massas de ar que concentram maior umidade estão sendo empurradas para a região Nordeste e chegaram a Sergipe pelo interior baiano, onde uma tempestade semelhante ocorrida na semana passada arrasou a cidade de Lajedinho, na Chapada Diamantina, deixando 16 pessoas mortas e centenas de desabrigados.

É um efeito da chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que já vem atuando no Nordeste desde novembro. "Se trata de um sistema que traz muita instabilidade atmosférica, empurrando a umidade para outras áreas mais quentes. E para ocorrer uma chuva mais forte, com trovoadas e ventos, basta haver calor e umidade. É o que está acontecendo, porque as instabilidades ocorridas no Sudeste estão entrando pela Bahia", explicou ele, ao apontar que o dia de sexta-feira foi de muito calor em Glória, com temperaturas médias de 39 graus.

Ainda de acordo com Overland, estas chuvas fortes deverão continuar no interior até o dia 20, véspera do início do verão brasileiro. No entanto, os seus efeitos não foram e nem serão sentidos na Grande Aracaju, onde outra chuva forte causou estragos no dia 4 de novembro, pelo mesmo motivo. "Existe uma circulação de ventos de nordeste que chega do Oceano Atlântico e está empurrando para o continente essas massas com maior umidade. Isso tem impedido que essas chuvas ocorram na capital", disse. Para hoje e amanhã, também estão previstas novas pancadas de chuva e rajadas de vento, sobretudo nas regiões de Glória e de Poço Verde.

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