Pesquisa revela tolerância social da violência contra mulheres

Kátia Azevedo

Um levantamento produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que 65,1% da população culpam as mulheres pela violência que sofrem. Das 3.810 pessoas ouvidas em todo o país, 66,5% são do sexo feminino. Os homens representam 33,5% da amostra.  

A pesquisa teve por objetivo apurar percepções da população brasileira acerca de temas da violência de gênero, revelando que alguns valores e ideias traduzem posturas mais ou menos tolerantes a este tipo de violência.

De acordo com a pesquisa, 65,1% dos entrevistados disseram que "as mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" e 58,5% afirmaram que "se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupro". Os dados revelados pelo Ipea mostram ainda que 42,7 %  concordam totalmente e 22,4%, parcialmente.

O estudo também fez perguntas sobre a relação homem-mulher dentro de casa e 91% concordam total ou parcialmente que "homem que bate em mulher tem que ir para cadeia", 89% acham que "roupa suja se lava em casa" e 78% acreditam que "em briga de marido e mulher não se mete a colher", mesmo em casos em que há violência.
"O resultado da pesquisa reflete a necessidade de priorizar investimentos públicos no combate à violência contra as mulheres a exemplo de medidas como campanhas educativas. Comparando com outras áreas, as políticas voltadas para a população feminina continuam esquecidas. Uma prova disso é que Sergipe não sediará os jogos da copa, entretanto há prioridade de aplicação de recursos para reforma do Batistão, enquanto a rede de atendimento às mulheres conta com poucas delegacias e abrigos. Somente com a copa, o governo brasileiro já gastou 30 bilhões de reais e para os programas de combate à violência contra as mulheres o valor não passa dos R$ 25 milhões. Em uma década, o investimento para ações de enfrentamento à violência envolvendo a população feminina foi de R$ 0,26 para cada mulher", sinaliza Jully Barbosa, coordenadora do Movimento Mulheres em Luta.

Jully ressalta que a pesquisa também é importante porque serve de instrumento cientifico que norteiam os debates dos movimentos sociais em defesa dos direitos das mulheres. Ela também lamentou que é  grave que a percepção social ainda culpabilize a mulher pela violência da qual ela é alvo. A pesquisa demonstra como a hegemonia masculina contamina inclusive a mente das mulheres que reproduzem o discurso machista.

A ativista lembra que o resultado da pesquisa reforça que o Brasil ainda tem uma sociedade conservadora, ao ressaltar entre os 66% dos entrevistados eram mulheres. Ela destaca que a situação da mulher em Sergipe é crítica e que o estado ocupa o 17º no país onde mais se mata esta parcela da população.
A ativista enfatiza que em outros países existem campanhas educativas que atuam no enfrentamento à violência de gênero, mas que no Brasil ainda são tímidas as ações de mídia voltadas para construção de valores sociais que façam a população reconhecer a violência de gênero como um problema a ser resolvido. Para a Jully, sem o direcionamento de recursos, a Lei Maria da Penha acaba tendo pouca operacionalidade. "A Lei trouxe visibilidade ao problema da violência contra a mulher, mas sem a estrutura necessária, as ações terminam com a aplicabilidade reduzida", exemplifica.

Ela ressaltou ainda que os resultados apresentados na pesquisa são importantes para cobrar do poder público iniciativas como mais campanhas de sensibilização para que mudem a percepção da sociedade sobre a violência de gênero. Em relação a Sergipe, a coordenada do Movimento Mulheres em Luta destaca que os avanços são mínimos. "O único órgão do executivo diretamente ligado à questão é uma subsecretaria que acaba enfrentando problemas para aquisição e administração de recursos financeiros na aplicação de ações de enfrentamento", observa.

Ela ressalta que a pesquisa também é um alerta para a importância da população ser aliada a ações contra a violência crescente envolvendo a população feminina. "No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 12 segundos e a cada 5 minutos uma é agredida. Esta violência é fruto da cultura machista da sociedade e este fato deve ser considerado e combatido todos os dias", reforça.

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