RELATÓRIO SOBRE O HOSPITAL

* Paulo F.T.Morais

Faz alguns dias que retornei à minha terra, depois de quase dois anos viajando por diversos países, gastando minha última quadra de vida lendo e escrevendo bobagens ditadas por reminiscências que se tornaram mel, mas que me haviam parecido ácidas quando aconteceram. Corrosivas de verdade foram as novidades que encontrei ao voltar, mas antes é preciso abrir o baú dentro do qual tais sucessos surgiram.

Nos dias que antecederam  minha ida, indignado com as cenas que havia visto, escrevi e entreguei à imprensa um relatório sobre estranhas ocorrências que testemunhei dentro do Hospital da cidade, facultando ao redator, caso não houvesse espaço, o corte nas minudências de ata.
Os fatos foram por mim percebidos quando fui visitar um amigo enfermo proibido de receber visitas. Consegui vê-lo e percorri o Hospital inteiro passeando pelos corredores, entrando em apartamentos aparentemente por engano, sem a menor precaução, recebendo cumprimentos de médicos, com direito a vênia, como se eu fosse um visitante ilustre ou um dos seus pares de renome. Enquanto minha mulher arrumava nossas malas, eu ia ao Hospital diariamente,  e, pasmo, anotei mais quebras de regulamento que me fizeram intuir que, por trás dos salamaleques corteses, outras estranhezas me aguardavam. Notei sem muito esforço que  a disciplina naquela instituição sofrera um sério engarrafamento.  Enfermeiros imperturbáveis não se mexiam, preferindo o pé firme nas rodas de conversa, apesar do zumbido das campainhas chamando-os aos quartos e enfermarias. Homens com os cotovelos nos balcões dos prontos-socorros de apoio comentavam o último aumento do preço da arroba de boi, enquanto um outro de semblante derrubado e mal-ajambrado aproximou-se e perguntou a um deles: "E sem recibo?"
O prédio do Hospital ficava no centro de uma área extensa. Nesse local havia um parque com dezenas de brinquedos, uma piscina de clube utilizada por alunos de natação e frequentadores, desde que fossem protegidos por planos de saúde, e contava-se ainda com um contingente de empregados de apoio. Rodando ou estacionadas, viam-se ambulâncias, trincheiras de macas apoiadas a uma parede, em cuja sombra funcionários jogavam pio, gamão e outros divertimentos. Mais adiante funcionava um restaurante sempre cheio de clientes, na sua maioria visitantes e pacientes aguardando alta. De repente, o movimento de ambulâncias aumentava, macas eram enfileiradas, médicos davam ordens, e todo esse aparato se dirigia ao parque, ou à piscina, ou ao restaurante e em seguida tomava o rumo do setor de urgências, na realidade um amplo galpão com camas separadas por biombos de lonas esburacadas. Logo o aumento do número de acidentes, principalmente nos fins de semana, chegou a surpreender. Ouvi cochichos  entre funcionários sobre o assunto. Mesmo considerando o crescimento da frequência, fui dar uma olhada no parque e me chocou a situação precária dos brinquedos corroídos pela ferrugem; parafusos e outros implementos davam a impressão de propositalmente desatarraxados. Alguns dias passados da nova mania, fiz pouca conta para chegar a uma conclusão inesperada: havia muito mais apartamentos no pronto-socorro, e geralmente todos ocupados, o contrário do hospital com seus aposentos vazios e o trânsito de pessoas de cabeça pendida e olhar de coelho assustado. Vendo do parque esse pavimento, não era raro surpeender no interior dos quartos e próximas às janelas pessoas filmando ou usando binóculo. Ao perceberem minha presença, desapareciam. Na água da piscina cabeças-de-prego multiplicavam-se. Tanta desordem sem que surgissem denúncias só podia ser compactuada e diligentemente monitorada. Se eu desconfiava que os brinquedos estavam ali para provocar acidentes, como conseguiam armá-los graduando-os de tal sorte que não matassem seus usuários? Médicos e enfermeiros ouviram meus comentários, disseram que minha tese era um absurdo, que eu procurasse o dono. E quem é?, perguntei. "É um homem tímido, nunca o vimos mas sabemos que só se manifesta em sessões mediúnicas". E dobraram a espinha de tanto rir.
A irresponsabilidade e mangação diante de uma grave denúncia, por mais estapafúrdia que pudesse parecer, me levaram a escrever o relatório. A publicação pelo jornal saiu truncada e condensada, um borrão ilegível, mesmo assim a diretoria do Hospital refutou-o no seu boletim  através de um Comunicado Ao
Público, no qual prometia rápida solução para os supostos descuidos por mim apontados, e depois de algumas rasas informações sobre minha pessoa, fecharam o Comunicado com uma paulada que me doeu até no osso: "O denunciante, em sua juventude, era um homem da farra".

Quando mencionei mudanças entre a cidade que deixei e a que encontrei, esclareço que a terra onde nasci hoje é o Hospital. Pouco tempo depois que embarquei ele foi vendido a um grupo empresarial com apetite canino para negócios de toda a espécie. O tempo foi passando e o domínio da instituição foi-se estendendo pela cidade, adquiriu todas as atividades produtivas, comércio, indústria,  um pequeno banco regional, setor de serviços, culturais e de lazer, incluindo-se  praia, parques, e a brigada de primeiros socorros parecida com a do parque antigo. O que me chamou mais a atenção foi um trapézio, ainda em fase de montagem, cuja barra traz o nome de sua origem: Circo Leandro, como o do chefe político da UDN regional. (Aqui vou abrir o que chamo "atalho para reabastecimento", um recurso estilístico de narrativa pertinente, que dá fôlego ao contador da história. O circo antes nomeado chegou a Aracaju na década de 50.  O prefeito da capital, Jorge Campos Maynard, da UDN, pressionado pelos correligionários dirigentes por causa do nome do circo, cujo número mais aplaudido por onde passava era As Rumbeiras do Leandro, uma canja para a galhofa que, sem dúvida, viria do PSD, o partido adversário, convocou o empresário: O senhor faz uma alteração ou não arma. E o que faço?, perguntou o outro. É fácil, respondeu o gestor do alto de sua calvície cintilante: troque o A de Leandro por E. E por Leendro ficou.) Fechada a digressão,  prometo investigar todos esses  extravios, principalmente o estado em que o balanço se encontra; as  quadras de esportes,  duas faculdades, e, para encerrar o ciclo da vida de um mortal, o cemitério. Todos os moradores do município são funcionários do Hospital. Com exceção do setor produtivo, as residências ficam fechadas durante o dia. Homens e mulheres fazem refeições nos restaurantes do Hospital. Os que recusarem o regime em vigor terão suas casas compradas e o serão banidos da comunidade. A exceção contempla os que tenham mais de setenta anos e estejam cursando a Universidade Itinerante, sobre a qual tenho munição da boa. As crianças vivem em creches e são liberadas à noite com os pais. Construíram novo prédio da prefeitura, o antigo foi transformado em pronto-socorro, e o prefeito não pode administrar nada, documentos são assinados por ele em branco, e seu único consolo é a garantia de reeleição. Estirado numa espreguiçadeira na ventilada sala presumivelmente construída para despachos, consome o tempo iludindo-se com namoradas de internet.
Com a criação da Universidade Itinerante, fecharam-se as duas faculdades, e ofereceu-se  a chance de todos os empregados diplomarem-se num curso superior.  Os matriculados pagam apenas o custo da apostila, descontado o valor no ordenado, e uma taxa mensal simbólica. A apostila vem com duzentas e uma páginas, sendo que a única escrita é a que relaciona os temas que devem ser desenvolvidos nas duzentas em branco. Em pouco menos de um ano apareceram dois professores para a diplomação de alunos. O sistema que funcionou com os primeiros matriculados, certamente não terá a mesma rapidez com relação aos demais, porque tudo dependerá do tempo necessário para o corpo docente, reduzidíssimo, cumprir o roteiro de ensino cigano,  agora em centenas de cidades que acolheram o plano. Pelo que me contou um retardatário de inclusão no sistema, se as adesões se propagarem pelo país inteiro, dificilmente terá um canudo antes dos 12, 15 anos de espera. Durante esse tempo, centenas de milhares de apostilas terão sido vendidas. Vale a pena um curso universitário de término incerto e de proveito inexplicado? "Vale. Pelo menos fico pagando meia até me diplomar ou morrer".

Eu e minha mulher entramos na Universidade Itinerante. Foi o melhor argumento que encontramos para não deixar nossa terra. Há por aqui eventos inexplicáveis, com ar de mistério, estimulando  minha embocadura detetivesca, como já ficou razoavelmente demonstrada. A tomada e o domínio total de uma cidade por um hospital merecem dedicada investigação. A fundação de uma Universidade Itinerante pela mesma instituição ocupará maior atenção dos inevitáveis  auditores do que o plano de aumento de receita posto em prática antes do meu exílio voluntário. Os antigos donos eram tilápias diante dos tubarões de hoje.
Compramos as apostilas. Um dos temas que me coube  foi mostrar qual a diferença fundamental que os turistas encontram entre os países que visitam. Habitual viajante de terras estrangeiras, já respondi em poucas linhas: são as massagadas que as bactérias intestinais esculpem no bucho de quem por elas passeia.

* Paulo F.T.Morais é jornalista e escritor (pftmorais@ig.com.br)

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