Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Murro em ponta de faca é com Julico mesmo. Quem vê o guitarrista quebrando tudo em cima do palco certamente não tem um pingo de dúvida sobre o acerto da escolha realizada há dez anos, quando um menino de São Cristóvão atou o próprio destino às seis cordas de um Kashima vagabundo, decidido a colocar o cotidiano de uma cidade esquecida no mapa da música independente brasileira.
Um caminho de pedras, percorrido com a cara e a coragem. Na marra. E que ninguém sabe ainda onde vai dar. Esta semana, contudo, os Baggios sobem no palco do Teatro Atheneu para gravar o primeiro DVD da banda – o apanhado de uma década inteira no fio da espada. Muita história pra contar.
"Foi difícil montar um roteiro. Nesses 10 anos de banda compomos mais de 70 músicas, 50 delas lançadas, outras esquecidas… Mas como quero fazer um revival, pensei em explorar desde as demos de 2004 até "Sina" (2013). Nossa ideia é fechar 20 músicas para esse show. Tem sido doloroso cortar algumas músicas do set".
Um repertório grandioso, à altura da galera reunida na celebração. Entre uma música e outra, a participação de uma boa parte da cena sergipana. Além de Lucas Araújo e Elvis Boamorte, que assumiram as baquetas nas primeiras formações da banda, Pedrinho Mendonça, Leo Airplane, Vinicius Bigjohn e Fabio Snoozer.
"O número de músicos convidados pode parecer exagerado, mas todos eles são muito importantes na carreira da banda. Me sinto honrado em ter músicos desse quilate, gente de quem sempre fui fã, num momento tão especial pra gente".
O Jornal do Dia acompanhou a trajetória da banda desde o comecinho. E agora pode se dar ao luxo de arriscar um resumo da ópera:
The Baggios (2006) – Os incautos vão escutar um monte riffs impregnados de blues e fumaça, ecos setentistas e timbres vigorosos. Para mim, em cada palhetada a vontade endoidecida de pegar um trem, fugir ao marasmo de uma cidade morta. Júlio Dodge liga o ampli e é como se cada paralelepípedo da cidade histórica pedisse arrego. Porque São Cristóvão podia, mas não é. Sucumbiu aos homens feito a puta sonhadora, um bordado de ilusões junto aos panos de bunda, o rosto murcho e o bolso vazio no final da madrugada.
Hard Times (2009) – Os Baggios ainda não pegaram um punga, ocupando o vagão ocioso de um trem, mas, depois de conquistar a cena local, começam a ensaiar passadas um pouco mais largas. Nos próximos dias, a banda fará duas importantes apresentações longe de casa. A primeira será realizada no encerramento do Perro Loco, um festival de cinema que ocorre anualmente em Goiás (…). A segunda apresentação está marcada para o dia 15 de novembro, quando a Baggios ocupará o palco de uma Feira de música em Salvador. O reconhecimento, no entanto, parece não ter dado muito jeito na cabeça torta de Julico, o que talvez explique o batismo do EP Hard Times, que acaba de ser lançado, o universo denso de todas as suas composições e a frase que resume toda a nossa conversa. "Blues é coisa de fodido".
O azar me consome (2010) – A essa altura do campeonato, os Baggios não precisam provar mais nada. O trabalho registrado na demo The Baggios (2006) e no EP Hard Times (2009), além da pegada Mississipi presente nas aparições do duo formado por Julio Andrade (guitarra e voz) e Gabriel Perninha (bateria), são mais do que suficientes para legitimar as conquistas acumuladas nesse curto espaço de tempo. Como demonstra a nova empreitada, no entanto, os caras estão cientes de que ainda há muita estrada para amargar.
The Baggios (2010) – Os registros lançados até o momento não passaram de um aperitivo, aquela dose que a gente entorna pra limpar a garganta e preparar o palato para o que realmente interessa. O primeiro disco da banda The Baggios passa a história do duo formado por Julio Andrade e Gabriel Perninha a limpo e cristaliza, com o apuro e cuidado merecidos, o talento e vigor de uma das melhores bandas independentes em atividade no país.
Sina (2013) – Diferente do cachorro que persegue o próprio rabo e passa a vida inteira dando voltas no mesmo lugar, a coerência dos Baggios não os impediu de explorar todas as possibilidades expressivas ao alcance de um duo de blues/rock. Submetido ao propósito, o conceito – uma bandeira de trapos fincada no umbigo imundo de paixões passageiras, alheias à geografia -, já tinha se prestado à levada flamenca de "Oh, Cigana". Em Sina, contudo, a ousadia os levou ainda mais longe. Além de carregar as influências evidentes no pretérito da banda (ecos de Hendrix, muito stoner rock e Raul Seixas, notadamente), as novas canções parecem arredias às amarras da forma. É possível identificar elementos estranhos à seara cultivada ao longo de quase uma década, do funk ao xote. No entanto, os motivos pouco importam. A guitarra de Julico berra alto como nunca.


