MST invade emissora de rádio e assume programa

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Cerca de 200 integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiram o prédio da rádio Xodó FM, em Nossa Senhora da Glória (Sertão), por volta das 12h30 de ontem. Eles derrubaram o portão da emissora e interromperam um programa jornalístico apresentado pelo radialista Anselmo Tavares. Durante cerca de três horas, eles fizeram várias pichações no local e discursaram contra o comunicador, a quem acusam de denegrir a imagem dos movimentos sociais. A saída do grupo aconteceu após negociação dos manifestantes com soldados da Polícia Militar e da Força Nacional de Segurança.

De acordo com o radialista Wilame Lima, que também trabalha na emissora, os sem-terra chegaram ao local em ônibus e caminhões que se concentraram em um conjunto habitacional da cidade. Em seguida, eles se postaram em frente ao portão do prédio com um carro de som e iniciaram um protesto, pedindo espaço para falar no programa de Anselmo. Seguranças e funcionários da rádio fecharam os portões e chamaram uma equipe da PM para tentar conter uma possível invasão, mas os manifestantes conseguiram derrubá-lo, forçando a passagem e ganhando acesso aos estúdios, que ficam no primeiro andar. Uma recepcionista teve uma crise nervosa, desmaiou e foi socorrida.

Tavares estava retomando o programa após o intervalo comercial, quando o grupo do MST chegou. "Eles simplesmente arrancaram o microfone da minha mão e começaram a falar, me impediram de continuar o programa", descreveu o radialista, que afirma ter sido ameaçado de agressão. "Agora você não fala mais nada, quem fala é nós (sic) e se falar vamos quebrar tudo", teria dito um dos manifestantes a Anselmo. Depois, eles discursaram em defesa do MST e criticaram o trabalho de Anselmo na própria emissora. Eles chegaram a exibir faixas contrárias a comentários feitos por ele no ar. "Anselmo Tavares, nós não somos ‘corjas’. Somos responsáveis pela produção de alimentos de Sergipe", dizia uma delas.

Segundo os sem-terra, o radialista vem ofendendo diariamente o movimento e os políticos que a apoiam, como os deputados do PT João Daniel e Rogério Carvalho. Eles se queixam ainda que fizeram várias tentativas de falar no programa de Anselmo e rebater as acusações, inclusive na Justiça, mas todas elas foram negadas. "Há um descontentamento muito grande com a forma que os movimentos sociais são tratados por este repórter. Ele a todo tempo nos chama de ladrão, de corrupto, bandido, marginal, cachorro… ele faz um trabalho de baixo nível, que denigre o próprio trabalho da imprensa, que sempre me respeitou", justificou João Daniel, horas mais tarde, ao garantir que não sabia da invasão da rádio, mas apoiar os manifestantes.

Anselmo rebateu as acusações. Disse que apenas faz denúncias e críticas às atuações do deputado e de seu grupo, as quais considera prejudiciais à população da região. O colega Wilame, por sua vez, garante que o MST nem foi citado nas críticas do radialista. Ambos consideram que a atitude foi uma retaliação planejada por Daniel e afirma que ele foi citado a todo o tempo pelos integrantes do movimento. "Eu defendo os sem-terra, sempre apoiei a luta deles. Não eram os sem-terra que estavam lá na rádio hoje. Foi um grupo de marginais e desordeiros que foram orquestrados por João Daniel. E eles vieram preparados pra destruir tudo. Picharam, quebraram coisas, levaram celulares…", acusa Anselmo.

Durante a presença dos manifestantes na Xodó, foram deslocados vários soldados do 4º Batalhão da PM (4º BPM), do Pelotão de Polícia de Caatinga (Pepac) e da Força Nacional – que estão em Glória para reforçar a segurança do presídio local. Eles chegaram a entrar na rádio, mas apenas conversaram com os manifestantes e acompanharam o ato. Não houve confronto, mas os sem-terra deixaram várias pichações com palavras de ordem e frases como "Anselmo Tavares, pistoleiro da comunicação" e "Anselmo, pode esperar. Sua hora vai chegar". Um boletim de ocorrência foi prestado pela direção da rádio na Delegacia Regional de Glória e alguns funcionários prestaram depoimento ontem à tarde.

Troca de acusações – No final da tarde, Anselmo e João Daniel trocaram acusações em entrevista à Ilha FM. O radialista acusou o deputado como culpado pela invasão e pelas ameaças. "E podem gravar: se me matarem ou se algo de mal acontecer comigo, isso será responsabilidade de Rogério Carvalho, de João Daniel e do prefeito de Poço Redondo, Roberto Araújo. São eles que estão por trás disso", disse Anselmo.

O petista, por sua vez, negou as ameaças, mas afirmou que os protestos contra a Xodó FM vão continuar e que faz questão de estar presente neles. "Eu não posso esperar que todos sejam humilhados e rebaixados. Não posso esperar que a justiça resolva pois já tem pelo menos cinco pedidos de direito de resposta. Esse é o primeiro dos muitos que virão. Iniciou hoje o projeto de democratização dos meios de comunicação. A Xodó vai saber o que é manifestação", rebate Daniel.

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