As polícias Civil e Militar entraram em uma grande divergência motivada pelas conclusões sobre o assassinato de um jovem ocorrido no ano passado, em Socorro. A Civil quer o indiciamento de três PMs, enquanto o comando aceita a denúncia contra o policial que efetuou os disparos
Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
As polícias Civil e Militar entraram em uma grande divergência motivada pelas conclusões sobre o assassinato do estudante David Philip Mota Santos, ocorrido em 12 de março de 2014 durante uma abordagem de militares do Batalhão de Polícia de Radiopatrulha (BPRp), no Conjunto Marcos Freire II, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju). Ontem, as duas corporações confirmaram que já entregaram seus respectivos inquéritos à Justiça e ao Ministério Público Estadual. Ambos divergem sobre a acusação de que os PMs teriam simulado provas, mas concluíram que o responsável pela morte do estudante foi o segundo-tenente Jamisson dos Santos, comandante da equipe da BPRp que atuou no caso.
No inquérito feito pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que foi concluído no último dia 17 de dezembro, a delegada Thereza Simony Nunes Silva pediu o indiciamento de Jamisson pelo crime de homicídio simples e dos outros dois PMs que o acompanhavam: o soldado Bruno do Nascimento e o cabo Saulo Farias Santos Silva, também lotados no BPRp, acusados por crime de fraude processual.
O argumento é de que o oficial disparou o tiro fatal contra a cabeça do rapaz, enquanto os praças teriam colocado um revólver junto ao corpo de David para alegar que o mesmo estaria armado e teria disparado contra a polícia. Isso aconteceu no momento em David e um segundo rapaz, Leonardo Rodrigues do Nascimento, o "Leozinho", teriam tentado fugir da abordagem policial em uma motoneta.
Procurada, Thereza preferiu não dar entrevista, dizendo apenas que o inquérito já está com MPE, junto à 2ª
Vara Criminal de Socorro. No entanto, a comerciante Vanusa Mota Santos, mãe de David, reafirma que a conclusão do DHPP foi baseada em provas da perícia e, principalmente, em vários depoimentos de pessoas que viram a abordagem. "Depois que o meu filho foi baleado, muita gente viu quando um dos policiais, não lembro se o cabo ou o soldado, chegou com a arma pra ‘plantar’ ela no corpo do meu filho. Temos certeza de que David não estava armado, pois ele nunca portou arma", disse ela, relatando um diálogo que ocorreu entre este PM e um tio de David, logo após a morte. Segue-o, em reprodução livre:
– Ei, onde é que você vai com essa arma?
– Esta é a prova do crime.
– Mas que prova?
– A arma que estava com ele [David] e que ele usou contra a gente.
– Não, senhor! Meu sobrinho nunca foi de andar armado.
– Mas ele atirou contra a gente.
– Aqui ninguém vai botar arma nenhuma! Isto está errado!
Versão da PM protege a corporação
Não foi o que entendeu a Corregedoria da PM, que fez um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o Caso David e o concluiu em setembro último, remetendo-o para a 6ª Vara Criminal de Aracaju (Auditoria Militar). Segundo o tenente-coronel Vivaldy Cabral, que presidiu o IPM, houve outros depoimentos de testemunhas e mais provas periciais, as quais apontariam que o revólver já estava com o estudante, concluindo que não houve fraude. "Fizemos todo o procedimento conforme manda a legislação, ouvimos testemunhas e não constatamos nenhuma prática irregular da parte dos policiais envolvidos. Apenas o homicídio simples que foi admitido pelo próprio tenente", disse Vivaldy, ao confirmar que Jamisson foi o único a ter seu indiciamento pedido pelo IPM.
O oficial, hoje comandante do 8º Batalhão de Polícia Comunitária (8º BPCom), destaca ainda que nenhum tiro foi disparado com a arma atribuída a David, conforme as perícias realizadas a pedido da Corregedoria. Perguntado sobre a conclusão da Polícia Civil, o tenente-coronel evitou a polêmica, mas assegurou que a PM "trabalhou com responsabilidade e total isenção" para apurar o caso. "Chegamos à esta conclusão com base em todo um trabalho isento e técnico, baseado em provas. A Polícia Civil também fez o trabalho dela e chegou a um entendimento diferente. Cabe agora ao Poder Judiciário decidir qual conclusão é a mais justa", disse Cabral.
Para a família de David, que tinha 17 anos ao ser morto, o parecer do DHPP foi "uma vitória" e ajuda derrubar o que foi dito pela Polícia Militar a respeito do estudante. "Ficamos felizes ao saber do inquérito da Polícia Civil. Nos corremos atrás, confiamos no trabalho da doutora Thereza e de toda a equipe, e a sensação é de finalmente a verdade foi ouvida. Porque o tenente Jamisson sujou a imagem dele. Meu filho foi enterrado como se fosse vagabundo, traficante, marginal. Vamos esperar pelo julgamento, mas a sensação é de que a imagem do meu filho vai começar a ser restaurada", desabafa a mãe, destacando que David era um rapaz estudioso, obediente e trabalhador, que nunca se envolveu com o crime.


