Gabriel Damásio
Mais uma fuga de internos aumenta a crise nas unidades socioeducativas da Fundação Renascer. Desta vez, 20 adolescentes escaparam de cinco alas da Unidade Socioeducativa de Internação Provisória (Usip), por volta das 14h30 de ontem. Eles provocaram um quebra-quebra e arrebentaram as paredes e as celas das alas, até terem acesso ao quintal situado nos fundos da unidade, no Capucho (zona oeste de Aracaju). De, lá, os menores entraram por um matagal e fugiram.
A assessoria de imprensa da Renascer confirmou que, entre os fugitivos, está o adolescente de 17 anos que assassinou o taxista Carlos Augusto de Almeida Menezes, 51, em 23 de fevereiro deste ano, na Aruana (zona de expansão). O rapaz, de classe média alta, tinha sido apreendido na semana passada em Itaporanga D’Ajuda (Sul), é apontado como o autor dos tiros que mataram a vítima e, segundo as investigações da polícia, iria fugir para a Itália, onde mora a mãe biológica.
O tumulto começou durante as atividades da tarde e foi controlado após a chegada de sete equipes do Batalhão de Choque da Polícia Militar (BPChq), que entraram na unidade e lá permaneceram por cerca de uma hora e meia. Os policiais deixaram a unidade relatando que as alas ficaram completamente destruídas. "O cenário é de grande destruição do dinheiro público, do suor do trabalhador brasileiro, que é jogado pelo ralo", disse o tenente Nelson Eron, do BPChq. Buscas foram realizadas pelo resto da tarde, com outras equipes da PM e um helicóptero do Grupamento Tático-Aéreo (GTA).
O presidente da Fundação Renascer, Wellington Mangueira, demonstrou bastante irritação quando chegou à Usip, assim que a noticia da fuga foi confirmada. Aos jornalistas, ele confirmou que mandou instaurar uma sindicância administrativa interna para apurar as circunstâncias da fuga, além de encaminhar um pedido à Polícia Civil para que abra inquérito policial, encaminhando inclusive as imagens do circuito interno de segurança da Usip. Ele admitiu que há suspeitas de que a fuga teria sido facilitada por pessoas que estariam insatisfeitas com a administração da Usip e do Centro de Atendimento ao Menor (Cenam).
Suspeitas – Uma delas, de acordo com o presidente, está nas imagens encaminhadas à polícia, as quais mostram que os agentes teriam demorado a avisar à PM sobre a fuga. "Nós temos os vídeos. Fica evidenciado que havia tempo para se tomar uma decisão e, para minha surpresa, 23 minutos se passaram para que fosse chamada a Polícia de Choque. Não telefonaram para a Fundação, nem para o diretor que tinha saído pra almoçar, nem para o diretor operacional… Então é claro que eu chego irritado, porque fica aparentemente a ideia de que, no mínimo, houve omissão", disse Wellington, frisando que esta suspeita só será confirmada – ou desmentida – depois da conclusão do inquérito policial.
Ainda segundo o presidente, a fuga em massa aconteceu horas depois de uma visita feita à Usip por promotores do Ministério Público Estadual (MPE), os quais conversaram com a diretoria, os agentes de segurança e alguns internos. Mangueira suspeita que um dos adolescentes teria dito aos promotores que teria sofrido agressões físicas. "Eu não sei se isso é verdade, porque ainda não conversei com o Ministério Público, mas dizem que esse garoto reclamou alguma coisa e iríamos abrir um inquérito, porque ele sabia o nome do agente. Se alguém ficou incomodado com isso e facilitou a fuga, isso vai ser investigado", afirmou Mangueira, ao confirmar que este adolescente seria ouvido formalmente ontem à tarde, mas também teria fugido.
Funcionários da Renascer iniciaram uma obra de emergência para recuperar as alas destruídas. Após a fuga, 28 internos ficaram na Usip, que tinha seis agentes socioeducativos de plantão durante a tarde de ontem. Segundo o presidente, a iniciativa dos outros internos em ficar deve ser valorizada, como forma de adesão ao objetivo de ressocializar os infratores. "Irei estimular aos agentes de segurança a fazer suas atividades mais próximas aos garotos e principalmente valorizar os adolescentes que não fugiram. E eles ficaram, porque não quiseram, porque acreditam que podem ser reeducados, sair dessa vida de crimes e, talvez no futuro, ser um juiz, um desembargador, um doutor. Eu acredito que todos merecem uma segunda chance", ressaltou Mangueira.


