LADRÃO DE CHINELOS

* Paulo Fernando Teles

Chegando à praia os cupins já haviam vo-ado. Eram cinco da manhã, quando passei pelo cupinzeiro, protegido por seu disciplinado exército de soldados cegos.
Todas as manhãs, caminho pela praia. Às vezes, pego carona com o poeta Ruy de Lucena, outro inveterado das caminhadas matinais. Companhia agradável, vê coisas extraordinárias, que somente poetas conseguem enxergar. Não o via desde que tentou me convencer da condição ímpar dos Bairros Capucho e América, segundo ele os únicos dotados de encantamentos em Aracaju. Encontrei-o mais poeta do que nunca, ainda saboreando o primeiro lugar do Concurso Nacional de Poesia do Absurdo, concorrendo com um poema sem pé nem cabeça.

O fato de os cupins já terem saído desagradou-lhe. – Acordamos tarde – lastimou.
Com senso de organização e disciplina fantástico, semelhante ao das formigas e abelhas, os cupins são pontuais em seus voos matinais e vespertinos. Pela manhã e à tarde, nunca depois das cinco. Ver o tapete escuro dirigindo-se à cidade para ganhar a vida é um prazer inexplicável. – Restam-nos as freiras aladas – confortei-o. As freirinhas da Ordem Mendicante têm uma casa no Bairro Capucho, e costumam ir à praia bem cedo. Muitas vezes nos precedem com seu hábito azul e branco. É uma graça vê-las correndo pela areia, airosas e cantantes, sempre em direção do nascente, enquanto o sol vai surgindo. Um dia o poeta as viu planar sobre as ondas.  – Foi fantástico vê-las fazendo evoluções na boca da barra, a uns cinqüenta metros da água; coreografias belíssimas desenhadas com os véus brancos utilizando os raios coloridos de um sol-menino. Ao fundo, o coqueiral da Atalaia Nova completava a aquarela.

De repente, Ruy de Lucena exclama: – É ele! É ele! – Quem, poeta? – O exímio artista, o ladrão de chinelos. Você precisa conhecê-lo. Se prometer não denunciá-lo, verá um talento incomum. Já me levou dois pares, mas o perdoei. Conheci-o por acaso, quando, sem me perceber, roubava um par de sandálias novinho, enterrado na areia. Ao ser flagrado, abriu-se comigo. Faz misérias ao transformar chinelos em peças artísticas. Vive em outro plano, precisamos apoiá-lo. – Então foi ele quem roubou meu par de raider! Deixei-as enterradas, coloquei uma caixa de papelão sobre elas, para não me confundir neste outro mar de areia, quando fui apanhá-las haviam sumido. – É um bamba. Observa os banhistas ou caminhantes até vê-los escondendo e camuflando o calçado. Logo que se afastam, leva o sinal identificador para outro local, despistando-os – explicou Ruy Lucena.

Pouco depois, estávamos conversando com ele. Um homem em torno de sessenta anos. – Transformo os chinelos em peças admiráveis, que os turistas comprarão sem regatear. Jamais nossos pés tiveram tanto reconhecimento.  – Por que não pede, em vez de levá-las? – perguntei. – Comecei implorando e fui tratado com hostilidade, até policiais foram chamados para me afastar da praia. Desapareço, mas volto. O disfarce é outra das minhas habilidades. Nosso amigo poeta teve o privilégio de ver alguns trabalhos, e ficou deslumbrado, não é verdade? – Ruy Lucena confirmou, com prazer. – Não estão todos prontos. Preciso fazer estoque. – Qual a razão de escolher chinelos, sandálias e transformá-los em objetos artísticos? – perguntei. – A sensação de valorizar também pela beleza a peça milenar, a primeira que deu proteção ao homem preservando os pés das asperezas dos caminhos. Desde antes do dilúvio, usavam-se sandálias. Ricos, pobres, santos, pecadores. Quem nunca ouviu falar nas sandálias do Mestre? Esse tipo de calçado, remoto quanto o primeiro agrupamento social humano, ainda conserva a reputação de ser um dos mais prazerosos confortos do corpo, mas exige aspecto correspondente à sua funcionalidade, esta a razão pela qual quis homenageá-lo tornando-o aconchegante e belo.

Faz algumas semanas que fui privilegiado com um par de antigas sandálias japonesas. Estou trabalhando para deixá-las sedutoras e cintilantes parecidas com joias. Nesta fase preliminar tento resgatar sua forma original, cor, odor, resistência, durabilidade. De posse dos componentes, faço o desenho. –  Quanto ao odor, o que mais preocupa você, encontrou a solução? – quis saber o poeta. – Ainda não, mas tem os dias contados. Meu campo de pesquisa são os cupins da mesma colônia que os amigos conhecem. Diariamente, coloco-me à frente dela, bem antes de vocês chegarem, aguardando o voejar de milhões de insetos. Quando saem me dão a sensação de ter recebido uma lufada de areia, com uma característica que me instiga: absolutamente inodora. A condição de vegetarianos podia explicar o fenômeno, todavia a mistura de raízes, sementes, papel, madeira, base de sua alimentação, exalaria algum odor. Sou obstinado, vou desfazer este nó, então farei uma fórmula para aplicar no meu material, e teremos calçados esteticamente perfeitos, funcionais e aromáticos.
Adeus, amigos, tenho pressa, vou em frente. Sinto o cheiro característico de sandálias Franciscano.

Paulo Fernando Teles é jornalista e escritor (pftmorais@outlook.com)

Compartilhe esta notícia