Famílias acampadas em ruas do Centro

Milton Aves Júnior
miltonalvesjunior@jornaldodiase.com.br

Na tarde do último sá-bado, 18, mais de 60 famílias que há mais de cinco anos ocupavam ilegalmente o Hotel Aperipê, em Aracaju, tiveram que deixar o local para atender uma liminar expedida pelo Tribunal de Justiça de Sergipe. Apesar de atender a determinação realizada em parceria com a Polícia Militar, até à tarde de ontem 20 famílias permaneciam ocupando vias públicas nas intermediações do edifício e assim garantiram permanecer por tempo indeterminado. Sem ter condições financeiras para alugar um imóvel, ou contar com parentes que possibilitem uma estadia, as mais de 50 pessoas aguardam por uma possível intercessão da Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria da Família e da Assistência Social. Enquanto o entendimento não ocorre, trechos das ruas São Cristóvão e Capela permanecem interditados.

Ao ser comunicada da pressão feita pelos moradores de rua, a direção da Semfas garantiu que já realizou um cadastro das famílias que ocupavam o edifício. Esta medida, apesar de garantir a concessão do auxílio-moradia para as famílias, parece não ter agradado a grande maioria que, temendo possíveis quebras de acordos por parte da PMA, exigiam que o auxílio fosse repassado no próprio local onde ocorreu a desocupação. Por sua vez a secretária destacou que a política administrativa municipal exige que para proceder com o benefício é preciso que as famílias procurem casas para alugar e levem a documentação necessária para o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), onde será requerido o benefício.

Na avaliação de Mônica Maria dos Santos, ex-moradora do hotel, onde passou seis anos junto com marido e dois filhos, os critérios utilizados pela prefeitura são desleais e incoerentes. "Pense você: você tem uma casa pra alugar e eu quero alugar ela, mas não tenho dinheiro. Talvez a prefeitura pague esse dinheiro, mas se não pagar? Nós vamos ficar com cara de tacho e você, que é o dono da casa, sem o dinheiro combinado. Então, estamos sem dinheiro algum, e sem dinheiro não tem como alugar nada. Só a prefeitura que acha isso possível", avaliou. A dificuldade deparada por Mônica também foi compartilhada pelo auxiliar de serviços gerais desempregado, Ancelmo Filho, que disse não ter as mínimas condições financeiras necessárias para quitar um mês de aluguel.

O desabrigado lamentou a situação e até disse entender a metodologia adotada pela administração pública, mas não deixou de implorar por mudanças que possam atender ao pleito das famílias. "Eu entendo que é uma determinação da prefeitura, mas aqui ninguém é de acordo com essa forma de governo. Não tem condições de a gente fechar um contrato sem ter um tostão sequer no bolso. Não tem esse que alugue uma casa ou apartamento para um desconhecido que não tem dinheiro. Precisamos de um local, sei lá, um galpão, pelo menos até sair esse auxílio", disse. Até o final da tarde de ontem nenhuma família retirada do Hotel Aperipê conseguiu ser contemplada com o auxilio-moradia. Pela Prefeitura de Aracaju não foi informado o valor deste auxílio.

Tentando se defender das críticas apresentadas pelos populares, a Semfas confirmou esta forma de conceder o benefício e que estas informações foram apresentadas oficialmente e de forma pessoal aos moradores do prédio há cerca de dez dias durante o cadastro promovido pelo próprio poder executivo municipal. Dados da secretaria mostram que, das famílias cadastradas, apenas uma família foi à unidade para requerer o benefício. As famílias da Ocupação Dandara devem receber o auxílio-moradia até que sejam inseridas em programas de habitação popular.

Mãe de três filhos, sendo um recém-nascido, Aline de Souza, de 31 anos, pede apoio por parte do Ministério Público Estadual e do Tribunal de Justiça. "Passamos duas madrugadas no meio da rua e o prefeito não fez nada pra ajudar a gente. Estou com meus três filhos aqui no meio da rua enquanto o pai das crianças saiu por aí para procurar alguma coisa que possa proteger nossos filhos até que a gente vá para alguma casa. A gente também não tem dinheiro pra alugar um cantinho, e meus parentes que moram aqui em Aracaju e em Socorro também não tem condições de deixar a gente morar lá nem por uma semana. Pedimos a ajuda dos promotores e dos juízes", contou.
Conforme informado pelo Comando Geral da Polícia Militar, grupos de agentes permanecem locados nas intermediações do antigo hotel a fim de evitar possível reocupação do imóvel, principalmente, por parte destas 20 famílias que permanecem desabrigadas.

Comércio – Enquanto permanece o impasse entre famílias e PMA, o setor lojista, que já anda preocupado com o baixo índice de vendas neste ano, questiona até quando operações semelhantes a essa vão permanecer atrapalhando o movimento comercial da região. Segundo o gerente Edmilsson Correia, a permanência das famílias no meio da rua interfere diretamente no lucro das empresas e no rendimento funcional dos servidores que atuam nesse ramo. "O lucro é importante para todos nós, mas antes de ter lucro os vendedores precisam mostrar o porquê foram contratados. Sem movimento, o faturamento cai e as despesas aumentam. Sei que as famílias podem passar um ou dois dias, não interfere muito pra gente, mas se por um acaso passar duas semanas? Não tem loja aqui que aguente sem cliente", lamentou.

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