Aquele entusiasmado coro de dezenas de vozes acompanhando o deputado Eduardo Cunha ao entrar, triunfante, na sede da Força Sindical, que o homenageava, foi, constata-se agora, um dos momentos mais vergonhosos do sindicalismo brasileiro, que padece em muitos casos, de uma síndrome histórica de picaretagem explícita. Ao lado do deputado federal e picareta Paulinho da Força, o presidente da Câmara dos Deputados sentia-se como um verdadeiro herói, ouvindo o que a música estimulante para o projeto que acalentava, de expandir ilimitadamente o poder político dia a dia mais fortemente consolidado. E o coro prosseguia: ¨Cunha, guerreiro, do povo brasileiro, Cunha, guerreiro, do povo brasileiro, Cunha, guerreiro, do povo brasileiro.
Fiel aliado e devotado amigo, o deputado sergipano André Moura demonstrava entusiasmo com a possibilidade de o ¨guerreiro do povo brasileiro¨ vir a tornar-se candidato à Presidência da República, ou assumi-la em caráter provisório, após a defenestração da presidente .
Homem impoluto, decidido, verdadeiro líder que comandava as decisões da Câmara e pautava as ações da política e do governo, Cunha seria apresentado como a figura providencial do político com a coragem suficiente para tomar decisões que o povo brasileiro estava a exigir. Seu caminho para o Planalto estava traçado. Para alguns setores evangélicos e fundamentalistas religiosos diversos, muito preocupados com a ¨deterioração moral que ameaça as famílias brasileiras¨, Cunha seria uma espécie de ¨mensageiro da salvação¨.
As bênçãos recairiam sobre Cunha, e os brasileiros formariam um coro entusiasmado de aprovação, repetindo: Aleluia, aleluia, aleluia.
O ousado e incorruptível ¨guerreiro do povo brasileiro, fiel seguidor dos mandamentos de Deus¨, sabe-se agora, com absoluta certeza, trata-se de um reles picareta, chantagista, farsante. Fantasiado de homem público, na Suíça tirava a fantasia, aumentando sempre o saldo nas contas secretas.
Desmascarou-se mais um golpista, e se constata a dimensão da fraude escandalosa, transformada num desses ¨projetos políticos¨ nos quais embarca uma grande parcela de brasileiros sempre vulneráveis às enganações, mesmo aquelas, clamorosamente evidentes.


