Roubo de cargas é combatido

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

As polícias Federal e Rodoviária Federal deflagraram ontem a "Operação Subida da Torre", que buscou desarticular uma quadrilha que roubava cargas de caminhões abordados na BR-101, entre as cidades de Cristinápolis (SE) e Rio Real (BA). Mais de 130 agentes dos dois órgãos foram mobilizados para cumprir 39 mandados expedidos pelo juízo da Comarca de Cristinápolis, sendo 20 mandados de busca e apreensão e 19 de prisão temporária. Ao todo, 11 pessoas foram presas e centenas de caixas com mercadorias sem procedência comprovada foram apreendidas em diversos endereços de Rio Real, Cristinápolis, Itabaiana e Tobias Barreto. Oito foragidos ainda eram procurados até o fechamento desta edição.
O grupo foi investigado durante quatro meses e foi responsável por cerca de 40 assaltos a caminhoneiros durante o período e apenas na região situada a 20 quilômetros da divisa entre Bahia e Sergipe. Segundo a polícia, é um trecho com ladeiras e curvas que obrigam os motoristas a reduzir a velocidade. A principal é a "Subida da Torre", em Rio Real, assim chamada por ficar próxima a uma grande torre de transmissão de telefonia celular. "É um aclive onde os veículos de carga sobem por quatro ou cinco quilômetros aproximadamente e, ao chegar no topo, vinha numa velocidade reduzidíssima. Isso facilitava muito para que eles [os assaltantes] tivessem acesso a esses caminhões e praticassem os assaltos", explica o inspetor Robson Feitosa, superintendente regional da PRF em Sergipe.
Outro trecho identificado como ponto de abordagem dos ladrões foi o trevo de acesso a Rio Real, onde haviam quebra-molas e lombadas eletrônicas que forçam a redução das velocidades. A alta incidência de assaltos no local fez a PRF pedir ao Departamento Nacional de Infraestrutura em Transportes (Dnit) que retirasse os quebra-molas do trecho, mantendo apenas os equipamentos eletrônicos. "Mostramos a importância de retirar as barreiras físicas, para dificultar a ação dos criminosos, e mantendo a barreira eletrônica, continuamos mantendo a segurança para o trânsito no local", argumenta Feitosa.

Como agiam – Os assaltos eram executados por homens armados com facas, revólveres, pistolas e armas longas, incluindo duas espingardas que foram apreendidas. Ao verem o caminhão passando devagar pelo trecho, eles corriam até o veículo e rendiam o motorista, obrigando-o a descer do caminhão ou levá-lo até uma estrada de terra deserta. Em seguida, a carga era colocada em outra carreta e levada pela quadrilha até um depósito, onde aguardava a negociação que era feita por um grupo de atravessadores. O delegado federal Márcio Alberto Gomes, responsável pelas investigações, confirma que os integrantes da quadrilha não tinham critério na escolha das mercadorias a serem levadas.
"Esse grupo era uma ‘clínica geral’: o que passasse, eles pegavam. Eles faziam a abordagem sem nem saber qual era a carga do caminhão. E só depois que levavam essa carga para uma estrada vicinal, é que eles descobriam qual era a carga, entregavam pros atravessadores e mandavam eles procurar receptadores interessados em comprar as mercadorias", disse o delegado. Durante a operação de ontem, foram apreendidos vários produtos, como charque, suplemento alimentar, pneus de carro, fios de cobre, medicamentos, perfumes, desodorantes, bebedouros e fogões, entre outros.
Através de levantamentos de campo e de escutas telefônicas autorizadas, os policiais constataram que algumas cargas eram revendidas com mais dificuldade em relação a outras. "Detectamos, por exemplo, que eles pegaram uma carga de medicamentos controlados e ficaram com ela ‘encalhada’ por muito tempo, porque não tinham pra quem vender. Em outras mercadorias, a facilidade é muito grande, como os fios de cobre. Teve um caso em que o grupo saiu da divisa [com a Bahia] e foi até Itabaianinha com um caminhão lotado de fios pra vender. Como estávamos monitorando, conseguimos recuperar a carga", relatou Márcio Alberto.
 
Lucros – Estima-se que cada carga roubada era avaliada em, no mínimo, R$ 100 mil. Até o momento, a PF conseguiu comprovar a participação dos integrantes da quadrilha em pelo menos seis assaltos, que já renderam um prejuízo de R$ 1 milhão. Agora, o trabalho será identificar os principais receptadores. Alguns deles, igualmente presos ontem, eram comerciantes que revendiam os produtos roubados em seus estabelecimentos, a preços abaixo do mercado.
"Com as prisões dos receptadores e dos roubadores, vamos intensificar o trabalho de inteligência para chegar aos maiores receptadores, em diversas cidades do Estado ou em outros estados. Estamos também investigando os bens que foram adquiridos por esta quadrilha com o dinheiro destas transações", garante o delegado José Grivaldo de Andrade, superintendente estadual da PF, pontuando que a possível liderança da quadrilha também poderá ser identificada na próxima fase das investigações. Os 19 acusados irão responder pelos crimes de roubo majorado, receptação qualificada e associação criminosa armada.

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