Quem, há mais de 40 anos esteve às margens daquele rio, e comparou as suas águas àquelas de um outro, que ainda era portentoso, poderia até, ter-se deixado levar pelo sentimento de ufanismo em relação ao país gigante, das florestas enormes, dos rios imensos, sempre, porém, com a ressalva sobre o desleixo que estaria embutido na frase do nosso edulcorado Hino: ¨Deitado eternamente em berço esplendido, ao som do mar e à luz do céu profundo¨.
Pois é, parece que o fatalismo do ¨berço esplêndido¨ que sugere indolência, nos teria contaminado. Nele dormimos todos, e dormimos tanto que acordamos, finalmente, para viver um real pesadelo. As florestas, que pareciam infindáveis, foram exterminadas, os rios secam, o calor aumenta, a seca castiga. O berço esplêndido vai se transformando numa torturante cama de faquir.
O que se fez no sul baiano é o mais incorreto exemplo do que não pode ser feito, mas continua, e por todo o país, ou melhor, no que resta das florestas, e o que resta, é, exatamente, o nosso maior patrimônio: a floresta amazônica. Os efeitos da devastação não demoram a surgir, são quase imediatos. Grande parte do outrora úmido e pluvioso extremo sul da Bahia começa a ser desertificado, e as chuvas rareiam. Em Eunápolis, um florescente polo econômico, em Teixeira de Freitas, regiões onde variadas culturas, entre elas o café, foram substituindo o capim, os mais velhos recordam da década dos setenta, quando os enormes toros de variadas espécies, entre elas o cedro, o jatobá, o jequitibá, começaram a ser transportados em grandes carretas, e o boi foi ocupando os pastos, na exagerada empreitada com farto financiamento oficial, patrocinado pelo governo autoritário. Desde então, dizem os memorialistas da tragédia, houve progresso, mas à custa do clima que era ameno e vai se tornando hostil.
Mais ao sul, no espaço muito antes devastado do Espírito Santo, está a cena que é a imagem catastrófica final de tantos crimes ambientais ao longo do tempo tolerados. O último e pior deles, é o resultado da mais calamitosa e criminosa imprevidência. Deixaram que fossem acumulados nas elevações da Serra do Espinhaço, que é um divisor de águas, um volume gigantesco de lama envenenada.
Quatro meses depois do rompimento das barragens em Mariana (MG), já próximo à foz, em Linhares, cruzando a ponte sobre o Rio Doce, quem por ali passou há tantos anos, admirando-se com a vastidão das águas claras entre as margens verdes, diante da cena calamitosa, tem uma incontida expressão de revolta, traduzida no impropério: ¨O que fizeram esses filhos da puta com o Rio Doce¨?
Escorrendo sob a ponte e até onde alcança a vista há uma enorme massa de lama com horroroso aspecto. É barro misturado ao óxido de ferro, gerando uma tonalidade ocre escurecida, que parece espalhar-se por toda a paisagem, pelos mangues, onde a vida sumiu. A lama que a Vale espalhou é tóxica, contamina, mata, é o produto letal de uma empresa imprevidente. E criminosa.
No esmaecer da tarde, a luz tênue do sol reflete-se sobre o lamaçal, e parece tingir todo o espaço, envolvendo a hoje triste cidade de Linhares. É o manto trágico de morbidez da natureza destruída. Por muito tempo, ainda, esse será o teatro fantasmagórico do que antes foi o Rio Doce; de toda a paisagem capixaba na área imensa onde espalhou-se o desastre.
Diz, desesperançado um pescador, preparando-se, aos 63 anos, para uma viagem ainda sem destino: ¨O rio está morto, acabaram-se os peixes, acabou-se a vida. A Vale matou tudo, a Vale matou a natureza¨.
O poeta florentino, homem do medievo, nem suspeitaria que um seu semelhante, moderno, no século vinte e um, viesse a elaborar cenários de inferno reais, muito mais ¨dantescos¨ do que tudo por ele criativamente imaginado para caracterizar o buraco tenebroso de Lúcifer.

