A entrevista em estado de arte

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A missa de Fernando Faro era rezada de corpo presente. Ainda que evitasse os holofotes, ocultando até mesmo o volume da própria voz, as entrevistas realizadas à frente do programa ‘Ensaio’ prestavam uma espécie de testemunho em relação ao lugar do exercício artístico. Nem o músico, nem o jornalista/entrevistador. Para o Baixo, todo o resto era circunstancial. O artista era uma condição do trabalho. Somente a música era revelada no palco.
Era um homem de outro tempo, anterior à capitalização dos afetos e a cultura da celebridade. Agora, depois de 26 anos de veiculação ininterrupta e mais de 700 entrevistas somente na TV Cultura, o acervo do programa ‘Ensaio’ preserva o testemunho de um profissional raro. Na obliteração dos personagens, uma ambição audiovisual esculpida em um jogo sensual de luz e sombras. A entrevista em estado de arte.
Faro morreu na noite do último domingo, em decorrência de uma infecção pulmonar, em São Paulo. Deixa três filhos e duas netas. Diretor de televisão e produtor musical, Fernando Faro completaria 89 anos no próximo dia 21 de junho.

O Baixo – O sergipano Fernando Abílio de Faro Santos, ou apenas Fernando Faro, o Baixo, nasceu em Aracaju, em 21 de junho de 1927. Seu avô era dono de engenho e o pai, Abílio da Costa Santos, morreu quando ele era criança, em um acidente durante uma partida de futebol. A mãe, Maria do Carmo, nunca mais tirou o luto. A família morou na cidade de Laranjeiras, depois mudou para Salvador, na Bahia, onde Fernando Faro estudou em colégio jesuíta, e chegou a São Paulo para cursar direito.
Na capital paulista, chegou a estudar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco até o 3° ano. Mas percebeu que não era o que queria. Ele gostava mesmo é de escrever e, em 1949, foi trabalhar como repórter geral no jornal A Noite e logo depois foi para o Jornal São Paulo, de propriedade do ex-governador do Estado de São Paulo, Ademar de Barros. Foi em 1951, quando estava na TV Paulista, que começou a dirigir programas e também a escrever teleteatros.
Na extinta TV Tupi, na década de 60, Fernando Faro começou a fazer musicais, como o Hora da Bossa, ao vivo, aos domingos. De lá para cá, não parou mais. Seguiu nesse rumo como produtor de shows, que ficaram famosos pela sua importância em momentos emblemáticos do país, entre eles o Primeiro de Maio.
Muitos outros espetáculos realizados com grandes nomes da música brasileira receberam sua assinatura, como Ney Matogrosso, Dorival Caymmi, Gal Costa, Chico Buarque e Marcos Valle.
É dessa época o apelido Baixo, que recebeu do diretor Cassiano Gabus Mendes, enquanto estava na emissora. O nome virou uma marca, e de tão agregado a ele, Faro passou a chamar a todos de Baixo e Baixa.
Fernando Faro escreveu, dirigiu e produziu musicais. Como diretor, realizou o Festival Universitário, o Festival de Música Popular e o Festival da Viola. Só saiu da Tupi quando a emissora decretou falência, na década de 1980.
Criador do programa Ensaio, em 1969, Baixo criou uma nova linguagem para os musicais, que se tornou inconfundível. A marca de seus programas, desde essa época, é assentada com enquadramentos em closes, big closes e foco no entrevistado falando. À meia luz, em voz baixa e sem se mostrar, ele faz as perguntas e deixa o convidado responder, cantar, chorar ou rir.
Quando foi para a TV Cultura, levou o programa com ele, porém com o nome de MPB Especial, que ficou no ar de 1972 a 1975. Em 1990, a atração voltou a receber o nome original, Ensaio, e está no ar até hoje.
Grandes nomes da música brasileira, nos mais diversos estilos musicais, já subiram no palco do programa. Estão entre eles Elis Regina (MPB Especial), Adoniram Barbosa (MPB Especial), Vinicius de Moraes (MPB Especial), Tom Zé, Chico Buarque, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Baden Powell, Fundo de Quintal, Toquinho, Dorival Caymmi, Tim Maia, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Maria Rita, Beth Carvalho, Renato Teixeira, Dominguinhos, Ney Matogrosso, Cauby Peixoto, entre muitos outros.

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