Mílton Alves Júnior
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"Sei que errei, mas estou me esforçando para me tornar um cidadão melhor assim que sair daqui. É isso que eu quero e é isso o que minha família espera de mim". Essa fala é do adolescente B.R.S, de 17 anos. Confinado há dois anos em uma unidade de medida socioeducativa por decisão da justiça sergipana, o jovem integra um grupo de socioeducandos que está desenvolvendo aplicativos destinados a aparelhos smartphones e tabletes com dispositivo androide. A proposta, além de buscar bom comportamento, é também aproximar as crianças e adolescentes ao universo da tecnologia contemporânea e distanciá-las do mundo obscuro do crime.
As bases funcionais do aplicativo são metodologias utilizadas em instituições de ensino, como exatas e humanas. Em uma espécie games com variadas perguntas e respostas, o público alvo tende a formar desenhos e escudos de clubes esportivos de acordo com o índice de acertos nas questões que vão surgindo a cada etapa do jogo. Para dar início ao processo de criação do aplicativo a Diretoria de Tecnologia e Informática da Fundação Renascer necessitou analisar o resultado da pesquisa desenvolvida pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil por meio do TIC Kids Online. Dados mostram que 70% dos brasileiros entre 09 e 16 anos de idade já possuem contato frequente com a inclusão digital.
Esses índices levaram os psicólogos e pedagogos do órgão a debater com os técnicos em DTI as medidas cabíveis para fortalecer a hiperconexão dos jovens ao mundo tecnológico. "Esse aplicativo reduz o elo entre o ensino, o adolescente e o mundo virtual. Mexer com cálculos e humanas, por exemplo, contribui para que cada um deles observe o quanto estão preparados para seguir uma carreira promissora após deixar a unidade. A educação e a tecnologia estão a serviço de todos, estamos apenas aflorando o potencial de cada um", declarou o diretor Wilton Santos. Antes de iniciar o desenvolvimento do aplicativo, alguns dos socioeducandos passaram por cursos no Serviço Nacional de Aprendizagem (Senai).
Uma pesquisa realizada pelo Jornal do Dia descobriu ainda, de forma positiva, que 120 adolescentes foram selecionados para estes cursos de tecnologia que serviram de seleção para o grupo que desenvolve o aplicativo. Destes, apenas 18 reingressaram nas unidades por continuidade na prática irregular. Mestre em medidas socioeducativas, o sociólogo Antônio Carlos Viana de Azevedo diz apostar no progresso de cada adolescente que se interessa e contribui para o desenvolvimento e apresentação do aplicativo. Unindo o estudo básico de cálculos e humanas com a visão de futuro, a tendência é que outros experimentos tecnológicos possam ser desenvolvidos por meninos e meninas em confinamento.
"Não tem como essa ligação dar errado. Os números mostram que a educação é o caminho ideal para melhorarmos a conduta de crianças e adolescentes que erraram para com a sociedade. Inovar com tecnologia é, além de propagar a cultura do bem estar de todos, incluir mais jovens ao mundo tecnológico por meio de aplicativos como estes", garantiu. Atualmente o produto em desenvolvimento passa por processo de programação de dados para em seguida enfrentar a fase de testes antes de ser lançado ao mercado. Gratuito, a perspectiva é que em até 45 dias o aplicativo – ainda sem nome definido, esteja disponível para todos os smartphones e tabletes.
Perfil, escolaridade e profissionalização – Um estudo realizado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), por meio da professora doutora em direito, Karyna Batista Sposato, indica que adolescentes confinados nas medidas socioeducativas no estado de Sergipe possuem uma defasagem média de seis anos no âmbito da escolaridade fundamental. Na avaliação apresentada por Sposato – em referência ao aplicativo em desenvolvimento, é preciso que ações semelhantes sejam multiplicadas de forma gradativa a fim de garantir ao adolescente acesso imediato a instituições de ensino após cumprir a medida aplicada pelo poder judiciário. O ato de dispor inclusão digital contribui para fomentar o interesse de todos nas diversas áreas da tecnologia e ciência.
"A profissionalização destes jovens trata-se de uma medida importantíssima para que possamos mudar a realidade de cada um. O que me chama a atenção é justamente a iniciativa de trazer o estudo de tecnologias contemporâneas para a realidade dos adolescentes. Hoje esse tipo de aplicativo, e assunto no geral, tem mexido com o interesse dos mais jovens e isso colabora demais para minimizar os efeitos inconstitucionais cometidos por este grupo antes de ser encaminhado para uma das unidades", avaliou. Questionada pelo Jornal do Dia sobre a metodologia educacional utilizada no país, a professora – consultora da Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pontuou:
"Em geral a estratégia educacional utilizada ainda é muito conservadora. Trabalho com a tese de evoluirmos pensando sempre no futuro, e justamente os anos posteriores estão entrelaçados com a cultura da qualificação tecnológica e científica. Provocar esse interesse dos jovens – seja por meio de aplicativos de celulares ou outra modalidade é o mesmo que unir a leitura, escrita e inovação em um único seguimento: a inovação". Mesmo tratando-se de um projeto elaborado por iniciantes, o conteúdo já tem chamado a atenção da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Sergipe (Fapitec).
De acordo com a coordenadora de Projetos e Inovação Tecnológica, Vanusa Maria de Souza, é possível incluir o trabalho em fase de desenvolvimento em algum dos editais públicos já disponíveis. "Nós trabalhamos com o sistema de edital e acompanhamento feito por profissionais mestres ou doutores ligados a instituições de ensino. O assunto abordado é bom, e nada como uma boa reunião para que possamos apresentar algum dos editais já abertos, ou algum que possa estar por abrir. Vamos procurar o edital ideal para que possamos encaixar. Após esse procedimento ele passará pela fase de análise", afirmou.
A informação atribuída pela Fapitec foi repassada ao departamento de DTI da Renascer, a qual se comprometeu em respeitar as regras do edital e buscar avanços cada vez mais significativos para o desenvolvimento das tecnologias e inovações dentro das unidades de medidas socioeducativas.


