Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
Os aracajuanos voltaram a ficar sem transporte público durante todo o dia de ontem e tiveram que se virar para ir de casa para o trabalho e para a escola. Desta vez, não foi uma greve por salários ou condições de trabalho, mas sim uma grande manifestação de revolta pelo assassinato do cobrador David Jonathan Barbosa, 26 anos, morto durante o assalto ocorrido na tarde desta quarta-feira, dentro de um ônibus da linha Bugio/Atalaia, na zona oeste da capital. Pelo segundo dia consecutivo, os rodoviários interromperam a circulação dos coletivos e fecharam os principais terminais de integração da cidade, chegando, em alguns momentos, a recolher os ônibus até as garagens.
Os motoristas e cobradores chegaram a iniciar a jornada de trabalho no final da madrugada, mas começaram a paralisar por volta das 5h, impedindo a entrada dos ônibus no Terminal de Integração do DIA, no Distrito Industrial (zona sul). Duas horas depois, foi a vez do Terminal Leonel Brizola, no Capucho (zona oeste). Mais tarde, e aos poucos, os ônibus concentraram-se na canaleta da Avenida Ivo do Prado, no Centro, fazendo com que todos os passageiros descessem. Pegos de surpresa, muitos usuários passaram a caminhar pelas ruas e avenidas, em busca de táxis, táxis-lotação, moto-táxis ou motoristas que oferecessem carona. Por sua vez, as pistas ficaram bastante congestionadas.
A maioria dos passageiros não reclamou da manifestação, declarando apoio à manifestação contra a morte do colega e a disparada dos assaltos a ônibus no transporte coletivo da Grande Aracaju. "Acho até justo, eles têm que fazer isso mesmo, senão ninguém faz nada e tudo vai continuar nessa. Todo mundo é assaltado direto e ninguém faz nada", disse uma estudante do Colégio Estadual Dom Luciano, no Centro, que suspendeu as aulas e liberou os alunos por causa da falta de transporte. "A população está ao lado dos rodoviários, porque não aguentamos mais andar de ônibus. Só que somos contra parar os ônibus fora dos terminais, porque tem muito idoso como eu que vem do INSS e tem que caminhar muito até os terminais", ponderou outro passageiro.
A principal paralisação, no entanto, ocorreu por volta das 16h e se estendeu até a noite. Foi quando os ônibus que ainda circulavam com passageiros pararam de vez e chegaram a ter seus pneus esvaziados. Os rodoviários deixaram os veículos em fila nas principais avenidas e compareceram em peso ao enterro do corpo de David, ocorrido ao final da tarde no Cemitério da Cruz Vermelha, no Getúlio Vargas (zona oeste). Estima-se que cerca de 1 mil pessoas tenham acompanhado o caixão do cobrador em cortejo pelas ruas do centro da capital e no caminho até o cemitério, por cerca de duas horas.
Segundo o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Aracaju (Setransp), apenas 30% da frota de ônibus circulou ontem e havia a expectativa de que o número aumentasse logo após o enterro do cobrador. "Imagino que isso foi por conta da mobilização para o sepultamento do nosso funcionário. Estamos fazendo o máximo para que a frota seja retomada e que o usuário não seja mais penalizado. Lamentamos muito pelo nosso companheiro que perdeu a vida, mas isso independe da nossa vontade", disse o presidente do Setransp, Alberto Almeida, que confirmou a colocação de ônibus à disposição dos rodoviários que participaram dos funerais.
No entanto, os rodoviários decidiram não retornar, alegando falta de policiamento e de ações mais firme contra os assaltantes, principalmente em áreas consideradas mais perigosas. O Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Rodoviário de Aracaju (Sinttra) declarou que não deu nenhuma orientação de paralisação dos ônibus e terminais, mas apoia as iniciativas. "Essa foi uma ação muito espontânea da categoria. O rodoviário acha que tem o direito de fazer essa paralisação em homenagem ao colega que morreu. O Sindicato não pode ir de encontro à vontade da categoria", afirmou o vice-presidente do sindicato, Francisco de Assis.
Dor e desespero – "Por quê tem tanto vagabundo pra morrer nesse mundo e não morre? Deus! Por quê morreu ele? O meu maridinho, tão fiel, honesto e carinhoso? Se eu pudesse estar lá dentro daquele ônibus pra gritar: ‘Amor, corra! Corra! Corra, pra você não morrer!’ Deus, me tire daqui! Deus, me leve de uma vez!". Estas frases eram disparadas aos fortes gritos de raiva, dor e desespero da viúva do cobrador, Juliette, ao chorar diante do caixão do marido, durante o velório. Amparada por outros parentes igualmente revoltados, ela teve algumas crises nervosas e precisou de acompanhamento médico. O casal estava junto há cinco anos e tem um filho de três, que não estava no velório.
Parte da família dele veio de Delmiro Gouveia (AL), onde nasceu. Já o pai, que mora em Pernambuco, chegou no fim da manhã. Muitos motoristas e cobradores uniformizados também compareceram e contaram que David trabalhava há apenas dois meses na Atalaia Transportes, tendo deixado um emprego na Bahia para ficar mais perto da família. "Meu irmão era muito direito, apesar de jovem, era um trabalhador, sério, dedicado. Somos muito próximos, muito unidos. Mesmo cada um casado, com filho, todo mundo estava junto. Estou sem palavras. Não consigo explicar a dor que sinto", lamentou a irmã, Zuila Barbosa.


