Gabriel Damásio
Os donos da fazenda que foi interditada no povoado Lagoa do Boi, em Gararu (Médio Sertão), durante operação comandada na semana passada pelo Ministério Público Estadual (MPE) e pelo Pelotão Ambiental da Polícia Militar (PPAmb), negam ser os responsáveis pela mutilação dos 16 animais que foram encontrados com as caudas decepadas. Um dos proprietários, Marcelo Vieira dos Santos, participou de uma audiência realizada nesta terça-feira pela promotora Rosane Gonçalves, dentro do inquérito civil que apura a denúncia feita por vaqueiros da região. A prática, adotada por alguns criadores, é considerada crime de maus-tratos aos animais.
Os bois e vacas, que eram usados na chamada ‘pega do boi’, foram apreendidos por decisão judicial, mas, até o fim do processo, permanecem aos cuidados de Marcelo, na mesma fazenda onde foram encontrados. A permanência, contudo, é fiscalizada pelo MPE e pela Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro). Na audiência, o fazendeiro disse à promotora que o corte das caudas não foi feito por ele e nem por seus empregados. Informou ainda que os bois já foram adquiridos sem parte do rabo, sendo 10 comprados e os outros seis ganhos como prêmio em outras corridas de ‘pega do boi’.
Os advogados de defesa do dono pediram que o juiz da Comarca de Gararu, Carlos Rodrigo de Morais Lisboa, autor do mandado de apreensão, nomeie um veterinário para periciar os bovinos e atestar que a mutilação deles aconteceu antesda compra dos mesmos. Já a promotora do MPE informa que a afirmação de Marcelo não é comprovada, pois ele não apresentou a Guia de Trânsito Animal, documento expedido pela Emdagro para registrar formalmente o comércio e o transporte de animais. Outras testemunhas e pessoas envolvidas também estão sendo ouvidas pela testemunha.
Marcelo Vieira é filho do vereador José dos Santos, o ‘Buraqueiro’ (PTC), 2º secretário da Câmara Municipal de Gararu e citado como um dos responsáveis pelos maus-tratos aos bois. Em nota, o vereador negou a acusação e criticou principalmente o deputado estadualGilmar Carvalho (sem partido), que divulgou em seu programa de TV várias gravações de vaqueiros e fazendeiros que admitiram ter decepado as caudas. Os áudios estão em 11 telefones celulares que também foram apreendidos durante a operação do MPE na fazenda.
“Nada comprova que a mutilação dos animais foi feita pelo meu filho Marcelo e eu. A imagem do gado que o apresentador Gilmar Carvalho divulgou em seu programa não é de propriedade de meu filho. Os áudios não tem nenhuma participação de Marcelo. O apresentador não poderia ter usado o meu nome, até porque não sou investigado e não tenho nenhuma participação na denúncia”, diz ‘Buraqueiro’, afirmando ter a “certeza de que fui mais um personagem de um joguete político-eleitoral irresponsável do qual não participo, porém, que afeta famílias e negócios que geram empregos”.
A investigação foi provocada pelo suplente de vereador Herbert Pereira (Rede), que fez uma representação à Promotoria da Comarca de Gararu, após receber fotos e gravações de vaqueiros que não concordam com o corte dos rabos dos bois. Eles explicam que as caudas são usadas como defesa natural dos animais contra a aproximação de insetos e outros parasitas, mas são decepadas por alguns criadores com elásticos de borracha, para dificultar a ação dos vaqueiros em competições de vaquejada ou ‘pega do boi’.A prática contraria as normas de bem-estar animal da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM), as quais determinam o uso deprotetores de nylon que revestem a cauda.
Os responsáveis pela prática podem ser processados com base na Lei de Crimes Ambientais, que prevê pena de até um ano de prisão.


