Paciente e acompanhante executados a tiros dentro de hospital em Itabaiana

Gabriel Damásio

 

A população sergipana acordou ontem sob um impacto de um crime ousado: por volta das 2h40 da madrugada, o paciente Gladeston Wanderson de Jesus Santos, o ‘Turu’, 20 anos, e seu acompanhante Franklin Teixeira de Jesus, 21, foram assassinados a tiros dentro de uma enfermaria do Hospital Regional Pedro Garcia Moreno, em Itabaiana (Agreste). O crime foi cometido por dois homens armados que estavam vestidos como agentes de policia e conseguiram driblar o controle de acesso ao interior da unidade. Ao todo, 15 tiros foram disparados dentro do quarto, que era ocupado apenas pelas vítimas. Ainda não há pistas sobre a identidade dos criminosos.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o crime já começou a ser investigado por equipes da Delegacia Regional de Itabaiana e do 3º Batalhão de Polícia Militar (3º BPM), as quais levantaram as primeiras informações ainda na madrugada, instantes após o duplo homicídio. No final da manhã, o secretário João Eloy de Menezes esteve na cidade serrana para acompanhar e orientar o início das investigações. O governador Jackson Barreto (PMDB) cancelou uma solenidade que estava programada para a manhã de ontem em Itabaiana e ordenou prioridade nas investigações do caso. “Estou indignado com o ocorrido e determinei ao secretário João Eloy que não poupe esforços para capturar os envolvidos nesse crime que chocou a sociedade itabaianense”, disse Jackson, em nota.

Os relatos iniciais foram confirmados pelo diretor do hospital, Darcy Tavares Pinto. Segundo ele, os matadores chegaram à recepção durante a madrugada e se dirigiram aos porteiros, identificando-se como policiais civis e exibindo uma suposta carteira funcional. “Eles estavam vestindo camisetas pretas, com escudo e o emblema da polícia, e depois que se identificaram, foi autorizado o acesso deles às dependências do hospital. Uma vez dentro do hospital, eles procuraram informações sobre um paciente e disseram que precisavam falar com ele. Uma vez localizado o paciente, eles imediatamente deram mais de 15 disparos”, relatou o diretor, negando que os funcionários do Garcia Moreno tivessem sido ameaçados pelos assassinos. “Na verdade, eles foram enganados”, atesta Darcy.

Ainda conforme o diretor, Wanderson estava internado na unidade desde a madrugada do dia 29, após levar um tiro no tórax e outros dois no braço. “Foi submetido a tratamento cirúrgico, do centro cirúrgico e foi liberado para a UTI, e da UTI ele foi transferido para a enfermaria, na tarde de ontem [segunda]. Não necessitava mais de cuidados específicos, o que significa que ele estava evoluindo bem”, afirmou Tavares. Ele também confirmou que não havia outros pacientes, acompanhantes ou servidores na enfermaria, ou seja, ‘Turu’ e Franklin estavam sozinhos no momento do ataque. “Ainda bem que não tinha outros pacientes, porque a gente imagina pela quantidade de disparos, que, se tivesse, eles poderiam ser atingidos por essas balas perdidas”, avalia. Cada vítima levou pelo menos cinco tiros.

Os criminosos fugiram após os disparos, aproveitando da grande confusão que se instalou dentro do hospital. Servidores e acompanhantes ficaram nervosos e o clima ficou tenso até a chegada da polícia. Os corpos foram recolhidos por volta das 7h, após o trabalho de peritos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico-Legal (IML).

 

Suspeitas – Durante a madrugada e ao longo do dia, os policiais identificaram testemunhas do crime e recolheram imagens de câmeras do circuito interno de segurança do Garcia Moreno e de imóveis situados em seu entorno. As primeiras investigações da polícia indicam que o duplo homicídio foi uma execução e pode estar relacionada aos tiros disparados contra ‘Turu’ na véspera de São Pedro. Segundo os investigadores, eles resultaram de uma tentativa de homicídio, ocorrida em uma festa na periferia da cidade. O delegado Jonathas Evangelista, coordenador de Polícia Civil do Interior, admitiu ainda a possibilidade de que o caso esteja ligado ao passado de Wanderson, que já respondeu a processos por outros crimes.

“Essa pessoa estava no hospital por conta de outro crime que tinha acontecido dias atrás lá na cidade, e no qual ele foi alvejado. Temos a informação do histórico de crimes desta vítima, que era um ex-presidiário. Estamos buscando agora informações para saber se esses dois crimes estão ligados. Provavelmente, por conta do histórico de crimes da primeira vítima, os crimes podem ter relação com casos de homicídio e tráfico de drogas ocorridos no município”, admitiu Evangelista, que também esteve em Itabaiana para acompanhar as investigações.

 

Controle – O caso deve ser acompanhado também pela Fundação Hospitalar de Saúde (FHS), ligada à Secretaria Estadual de Saúde (SES). O diretor Darcy Tavares admite a possibilidade de reavaliar o controle de acesso de visitantes ao interior do Garcia Moreno. “Essa questão de restrição de acesso é um assunto que precisamos discutir melhor com a nossa secretaria, porque não se pode restringir acesso em serviço público. A impressão que fica é de preocupação, porque a gente vê um grau de violência cada vez maior, que as pessoas nem estão respeitando nem as unidades hospitalares, onde tratamos doenças e salvamos vidas”, lamentou.

Este não foi o primeiro crime de morte ocorrido dentro do Hospital Regional de Itabaiana. Na manhã do dia 3 de abril de 2008, dois homens conseguiram entrar na recepção da unidade e disseram estar à procura de uma mulher internada, mas dirigiram-se a outro quarto e executaram o ex-presidiário Antonio Carlos Lima Santos, o ‘Tonho’, que se recuperava de uma cirurgia. Quase dois meses depois, em 26 de maio, a Polícia Civil deflagrou a ‘Operação Caça-Fantasma’ e prendeu cinco pessoas envolvidas com o crime. Um sexto acusado morreu em confronto com os policiais.

 

Compartilhe esta notícia