Jeff Bezos não pisará em Marte

 

* Rian Santos
A depender de mim, 
Jeff Bezos ainda es
taria a olhar para o céu com a mesma admiração estupefata de uma criança em frente ao mar – pequeno, humilde, deslumbrado, humilhado. 
Não, a Amazon nunca viu a cor de meu dinheiro suado. Os livros enfileirados em minha estante foram comprados um a um, em livrarias de carne e osso; doados por amigos generosos como Luciano Correia; sugeridos por Fúria, livreiro querido, maluco de fino trato.
Tenho a mão fechada. Penso evitar, assim, a colonização das estrelas. Quando tudo virar cinzas, cá embaixo, nem toda a grana e a arrogância do mundo salvarão Bezos de arder igual a toda a gente. Durango, antegozo a visão de uma fogueira redentora onde, finalmente, entre gritos de dor e imolações crepitantes, a humanidade irá superar, enfim, todas as desigualdades e a luta de classes.
O comércio da Amazon vai de encontro a minhas crenças mais arraigadas. Coroa, dediquei uma vida inteira a sentir a textura do papel na ponta dos dedos, uma sensação erótica. O flerte entre amador e a coisa amada carece de ambientes analógicos, adequados às virtudes do muito imaginar. Sebos e livrarias, o Paraíso na Terra, na manjada sentença de Borges, são mais aconchegantes do que o ecrã de um celular. 
Isso posto, sinto-me na obrigação de fazer uma ressalva. Vocês me perguntam: E aí, o livro da menina Canuto é isso tudo, mesmo? Constrangido, respondo que ainda não sei.
Admito a minha ignorância morto de vergonha. Fui à Escariz uma caralhada de vezes, mas não encontro um único exemplar de ‘Há uma lápida com o seu nome’. O batismo da obra é sugestivo, insinua uma narrativa repleta de rancor. Os textos breves de Canuto, publicados no Poca Olho (se o leitor ainda não conhece o blog, que reúne a nata da nova escritura Serigy, está marcando passo), são uma delícia. De resto, afirmo aqui a minha expectativa como quem dá um tiro no escuro, sujeito aos riscos da adivinhação.
A empresa de Bezos é uma merda, não vale o que o gato enterra, opinião de seus próprios funcionários. Mas a nossa Escariz, em diversidade de títulos e atenção ao leitor, convenhamos, não fica atrás.
* Rian Santos, jornalista

* Rian Santos

A depender de mim,  Jeff Bezos ainda es taria a olhar para o céu com a mesma admiração estupefata de uma criança em frente ao mar – pequeno, humilde, deslumbrado, humilhado. 
Não, a Amazon nunca viu a cor de meu dinheiro suado. Os livros enfileirados em minha estante foram comprados um a um, em livrarias de carne e osso; doados por amigos generosos como Luciano Correia; sugeridos por Fúria, livreiro querido, maluco de fino trato.
Tenho a mão fechada. Penso evitar, assim, a colonização das estrelas. Quando tudo virar cinzas, cá embaixo, nem toda a grana e a arrogância do mundo salvarão Bezos de arder igual a toda a gente. Durango, antegozo a visão de uma fogueira redentora onde, finalmente, entre gritos de dor e imolações crepitantes, a humanidade irá superar, enfim, todas as desigualdades e a luta de classes.
O comércio da Amazon vai de encontro a minhas crenças mais arraigadas. Coroa, dediquei uma vida inteira a sentir a textura do papel na ponta dos dedos, uma sensação erótica. O flerte entre amador e a coisa amada carece de ambientes analógicos, adequados às virtudes do muito imaginar. Sebos e livrarias, o Paraíso na Terra, na manjada sentença de Borges, são mais aconchegantes do que o ecrã de um celular. 
Isso posto, sinto-me na obrigação de fazer uma ressalva. Vocês me perguntam: E aí, o livro da menina Canuto é isso tudo, mesmo? Constrangido, respondo que ainda não sei.
Admito a minha ignorância morto de vergonha. Fui à Escariz uma caralhada de vezes, mas não encontro um único exemplar de ‘Há uma lápida com o seu nome’. O batismo da obra é sugestivo, insinua uma narrativa repleta de rancor. Os textos breves de Canuto, publicados no Poca Olho (se o leitor ainda não conhece o blog, que reúne a nata da nova escritura Serigy, está marcando passo), são uma delícia. De resto, afirmo aqui a minha expectativa como quem dá um tiro no escuro, sujeito aos riscos da adivinhação.
A empresa de Bezos é uma merda, não vale o que o gato enterra, opinião de seus próprios funcionários. Mas a nossa Escariz, em diversidade de títulos e atenção ao leitor, convenhamos, não fica atrás.

* Rian Santos, jornalista

 

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