Milton Alves Júnior
Duas pessoas morreram e outras 160 estão temporariamente desabrigadas devido às tempestades que atingiram todo o estado de Sergipe ao longo das últimas 72h. Conforme previsto pelo Centro de Meteorologia, órgão vinculado à Superintendência Especial dos Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Serhma), o volume de água previsto para esta última semana de novembro apresentava perspectiva de contabilidade histórica. Somente na capital sergipana, Aracaju, de forma inédita até o início da manhã de ontem foi possível registrar quase que o triplo previsto para todo o mês. De acordo com a Serhma, a média histórica é de 47,1 milímetros; neste mês de novembro, no geral, foram registrados 134 mm, sendo 114 somente entre a última sexta-feira e domingo, 26 e 28 respectivamente.
Diante das intensas pancadas de chuva, o sistema de escoamento de vários bairros não conseguiu operacionalizar conforme o desejado, e casas apresentaram pontos de inundação. Nos bairros Aruana e Aeroporto, pela primeira vez desde o início dos anos 2000, por mais de 30 minutos a rede de drenagem foi insuficiente. Sem ter para onde escoar, a água da chuva foi se acumulando dentro das residências, órgãos públicos e estabelecimentos comerciais. Devido a baixa visibilidade, e, visando garantir a segurança coletiva, nesse período [final de semana] o Aeroporto Santa Maria precisou ser fechado em três oportunidades. Imagens do circuito interno, compartilhadas no início da manhã de ontem, mostram raios atingindo parte da pista, próximo a uma aeronave pertencente à Polícia Militar.
“Foi desesperador. Era 0h50 da sexta para o sábado quando a chuva começou a apertar. Me levantei para ver o sistema de escoamento das bicas do telhado e vi que estavam no limite. Pouco tempo depois, acho que menos de 20 minutos, ela começou a transbordar e o ralo foi quem atingiu o limite. 1h20 começou a alagar”, declarou Felipe Arcanjo, morador do Conjunto Franco Freire II, bairro Aruana. Questionado sobre a situação nas ruas, ele informou ao JORNAL DO DIA que em algumas vias foi possível identificar até um palmo de alagamento. “Isso dá mais ou menos 15 cm de altura. A chuva era muito forte, e o sistema não dava conta. Nunca vi algo parecido”, completou.
Diante da vulnerabilidade do solo, na madrugada uma cratera se abriu na Rua M – também no bairro Aruana, e puxou um carro que estava ocupado por três pessoas da mesma família. Segundo o Governo de Sergipe, o buraco foi causado pelo rompimento de uma tubulação da Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso). No momento da ocorrência o veículo era conduzido pela motorista Andréa Santos. “Desviei de um pequeno buraco devido à chuva e entrei em outro, que eu não tinha visto que estava com um cano como se fosse estourado e o volume de água estava muito grande. Meu esposo saiu do carro para verificar a situação e foi engolido até o tórax pelo buraco”, disse.
Fatalidade – A maior incidência de famílias desabrigadas está na região que agrega municípios do Alto Sertão Sergipano. Somente na cidade de Canindé de São Francisco, 39 famílias precisaram deixar as respectivas residências após serem inundadas pelas fortes chuvas. Em comunicado oficial, a administração municipal, através da Secretaria de Assistência Social, informou que seis famílias seguem acolhidas em abrigos, enquanto as demais foram recebidas em casas de parentes. As duas mortes também foram registradas em Canindé. De acordo com a Secretaria de Estado da Segurança Pública, quatro pessoas estavam em um carro, transitando pela Avenida João Alves Filho, no centro da cidade, quando foi arrastado pela correnteza e caiu dentro do riacho da Onça.
Das quatro vítimas, duas conseguiram deixar o veículo e receberam atendimento pré-hospitalar ainda no local, e, as demais, foram retiradas já sem sinais vitais; as vítimas fatais eram dois homens, de 35 e 62 anos. A perspectiva é que novos temporais possam atingir o estado de Sergipe nas próximas horas. Segundo o meteorologista Overland Amaral: “vai se repetir, devido a presença desse canal de instabilidade entre a Bahia, Sergipe e Alagoas. O fenômeno ‘La Niña’ traz mais chuvas para as regiões tropicais e permanece causando instabilidades convectivas aqui no Nordeste. Nós estamos com esse efeito muito intenso, a temperatura e a umidade presentes nesse sistema faz com que haja essas convecções aqui na região, com característica de trovoada.”


