Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
No artigo anterior (5 de março de 2022), destacamos as discussões preliminares da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano. Entre os aspectos ressaltados, a ideia de Jesus como o grande educador (p. 12). Considerando que a Quaresma é um deserto de aprendizagem e uma escola da vida (Pe. Adroaldo Palaoro, sj- Retiro Quaresmal, 2022, p. 9), é importante refletirmos sobre essa característica do Cristo que ensina e que, de maneira atemporal, deixa um legado sempre inovador, poucas ou quase nenhuma vez tentado por aqueles que lindam com educação.
Para além e uma “ignorância existencial”, vivemos tempos de grande ensimesmamento, encerrados num egoísmo cada vez mais cruel e desumano, capaz de nos apartar não somente do outro, mas também de nossa própria existência. É tempo, portanto, de uma “conversão do coração” (p. 15), e como sempre tem feito, a partir da CF, refletir sobre as estruturas da sociedade à luz do Evangelho e do Ensinamento de Jesus Cristo.
Partindo do princípio que a educação “é indispensável para a construção de um mundo mais justo e fraterno” (p. 16), a CF de 2022 se propõe a não somente refletir sobre os problemas educacionais brasileiros, mas a necessidade de apontar soluções a curto e médio prazo, pois o tempo urge e as demandas são inúmeras e gritantes. Em que pese a desumanização do tempo presente, é mister pensar e proporcionar uma reeducação humanista.
Já dissemos que Jesus Cristo não deixou nada escrito, mas que sabia ler e certamente também sabia escrever. Também não sabemos o que ele escreveu naquela passagem de João 8,1-11. Mas, a cena com a mulher adúltera prestes a ser condenada por apedrejamento nos remete a pensar num Jesus educador que não condena, mas que ouve e aponta outros caminhos que não o definitivo e destrutivo modo de dizer a quem errou que não se pode, mas corrigir e aprender.
Em duas ocasiões, Jesus se curva nesta passagem. Assim, deve ser o educador, que precisa curvar-se perante seu orgulho, e muitas vezes orgulho do conhecimento, que precisa ouvir, ser compreensivo e compreendido. Assim como a mulher é “restituída em sua dignidade humana” (p. 20), o fim último da educação é dar ou recuperar a dignidade das pessoas. Não se trata apenas da necessidade de adquirir conhecimento e de saber, mas de SER.
Assim, aponta-nos a CF o Jesus educador a partir do seguinte método: 1) escutar em silêncio o que dizem; 2) conduzir pedagogicamente as partes a se permitirem falar e ouvir, de forma dialógica; 3) proporcionar atitudes e realidades que transformam (pp. 21-22). Essa dialética do amor é capaz de evitar inúmeras contrariedades, muitas vezes consequências de uma educação que para além de transformar, quer, sobre diferentes formas, naturezas e interesses, adestrar.
Não se trata apenas de uma educação transformadora, mas também libertadora. O acolhimento é a melhor forma, a partir do método educativo de Jesus, de fazer com que a educação realmente tenha sentido na vida das pessoas. Ao contrário do que preconizava Norbert Elias, a educação como violência civilizadora, com o perdão da redundância, a educação dever ser educadora.
E antes que me tachem de “carola intelectualizado a serviço da Igreja”, permitam-me ainda dizer que não estou tratando de “educação católica”. Trata-se de um legado educativo, claro, evidente, palpável e possível, que o Mestre Jesus nos oportuniza há quase dois mil anos. Perdidos muitas vezes em teorias e ideologias, esquecemos que a criança só que SER criança e de igual modo o adolescente e o adulto que viu a oportunidade de aprender deixar passar.


