Rian Santos
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Vira e mexe, o jornalista é tomado por uma espécie muito particular de fastio. Acostumado a dar opinião sobre tudo, deus e o mundo, ele procura refúgio no fato puro e simples – um esgoto entupido, um crime de ódio dos mais sangrentos, uma passeata, um discurso político.
O feijão com arroz da profissão prescinde de manha, dispensa a animação para contrariar interesses. Para colher uma declaração no meio da rua, meter o dito e o não dito entre aspas, basta saber um pouco de português. Por vezes, nem isso.
Leitores de longa data provocam o jornalista, querem opinião sobre o trabalho de um menino com singular disposição para ralar os joelhos, bajular os poderosos, um puxa saco dos mais dedicados, um baba ovo. Artigos insossos já não lhe bastam. Há poucos dias, o sujeito estreou em livro.
Penso que os leitores não estão satisfeitos de saber o jornalista tão pobre. Querem, além disso, imaginá-lo às voltas com adjetivos insalubres. Não li, não vou ler a biografia recém lançada de João Alves Filho. Baudelaire me garante que Deus, se existir, protege os filhos queridos das leituras inúteis.
Sim, o jornalista sou eu mesmo, quem vos escreve. Em toda a obra monumental do ilustre biografado, faço questão de sublinhar a mesquinharia que negou a Zé Peixe a merecida homenagem de batizar uma ponte sobre o Rio Sergipe. Terá o fato recebido alguma menção nas 500 páginas de ‘João Alves Filho – A saga de um político nordestino’? Eu duvido.
Igor Salmeron, autor de uma provável peça cartorial, é um jovem pródigo na requintada arte de sorrir a esmo. Já redigiu laudas e mais laudas de tributos vazios aos personagens mais influentes do estado. Ao contrário de mim, admito premido pela inveja, corre o risco de se tornar um homem rico.


