Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ricardo Vieira já percorreu meio mundo, no tempo e no espaço, munido exclusivamente de um violão. Jamais, entretanto, sete cordas o levaram tão longe como no álbum ‘Atemporal’. O músico está acostumado a alturas imensas, como deixou patente em percursos realizados antes – desde os primeiros passos de sua trajetória artística, quando encarou a rotina das rodas de choro, até os trabalhos autorais realizados ao lado das feras do grupo Membrana, mais o guitarrista Fred Andrade. Com o lançamento de ontem, entretanto, ele avança sobre uma fronteira nova, um trajeto de espantos.
Não se trata de anunciar descobertas, desfrutar a frescura de matas virgens. Trata-se, antes, de tatear labirintos. A estrutura circular da maior parte das peças, aliás, comunica uma urgência que eu só experimento ao ouvir alguns concertos de Bruch ou de Bartok. A beleza acena, como uma miragem – um convite para o abismo, o desespero, a perdição, o desprendimento.
Divago, talvez. Mas apesar do rigor e da concretude inegável de cada tema explorado com uma inflexão sem máculas, embora cada nota vibre em alto e bom som, clara como uma taça de cristal, há algo que se comunica aqui também pelas pausas, pelas fissuras, nas entrelinhas do não dito. Atenho-me a certo suspense e também ao que fica em suspenso, boiando na memória, como um apelo, um pesadelo.
Por certo, o investimento sensível no que há de áspero no contato, a disposição para um desconforto tangível. Não à toa, o projeto gráfico assinado pela designer Gabi Etinger se atém a uma paleta de cores a mais sóbria, em privilégio das sombras, quase solene.
“Não é agradável, a minha história; não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas”, diria um personagem de Hermann Hesse. Ricardo Vieira, por sua vez, narra a viagem inteira, até a beira de um precipício, passo a passo.
OUTRAS VIAGENS
Chegada (2017): O já sabido passa longe do interesse jornalístico. O profissional de comunicação, entretanto, é, por vezes, obrigado a chover no molhado. Ressaltar a competência do duo formado por Júlio Rêgo (harmônica) e Ricardo Vieira (sete cordas), por exemplo, equivale a apontar o azul inclemente no céu de Aracaju. Estamos todos acostumados à fartura de luz, ao calor pedindo praia. Ninguém mais se espanta. E, no entanto, basta se dar conta de tanta maravilha para perder os olhos no infinito, embasbacado.
‘Chegada’, o primeiro registro assinado pelo duo, é das verdades de conhecimento público e notório. E, ainda assim, impressiona. Nos dez temas autorais, mais uma versão sofisticada de ‘Asa Branca’, os músicos, assim como eventuais convidados, sobram, senhores absolutos de seus instrumentos. A técnica impecável, entretanto, jamais se sobrepõe ao sentido. ‘Chegada’ é repleto de sensibilidade.
Pérolas para Jobim (2018): A Música Popular Brasileira, aplaudida por certa malemolência, é também marcada por requintes pontuais de elevada erudição. Embora a sensibilidade verde e amarela, profundamente identificada com o País tropical da canção, seja sim tributária da alegria mais calorosa, tal sentimento nunca foi essencialmente estranho à forma clássica. É nessa espécie de Lado B do espírito nativo que o Duo Vieira aposta todas as fichas com o projeto Pérolas para Jobim.
As cores usualmente atribuídas ao cancioneiro tupiniquim pintam uma nação de traços folclóricos, lugar próprio do exótico, de valores alheios a grandezas musicais. Já a voz da cantora Rebeca Vieira, associada aos arranjos de acento camerístico assinados pelo sete cordas Ricardo Vieira, ao contrário, passa ao largo de tudo o que não é música. E, também por isso, busca aqui as próprias razões no repertório menos conhecido do maestro Tom Jobim.
Um dia (2019): Já faz tempo que Fred Andrade encontrou aqui a sua turma, privilégio, talvez, de forasteiro, imune à praga do Cacique. Desde então, a colaboração com os músicos supracitados é constante. O encontro com o pessoal do grupo Membrana (Julio Rego, Pedro Mendonça e Dudu Prudente), entretanto, ainda carecia de um produto com a assinatura da cambada inteira. ‘Um dia’, gravado no estúdio Carranca (PE), com a participação de Ricardo Vieira, registra o desaforo de tanto talento reunido, um papo de gente grande.


