Rian Santos
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Não sou de dar ouvidos a singles. Quando o segundo álbum da banda Madame Javali finalmente cair na rede terá a minha atenção. Até lá, ouço ‘Luz dentro do caos’ mais uma vez e de novo, sem descanso. A apresentação a ser realizada hoje, no palco de um pub local, pode até contar com novos petardos, anúncio das experiências mais recentes da cambada. Mas a pegada há de ser a mesma, pontuada por um lirismo repleto de ruídos.
‘Luz dentro do caos’ (2019) dá de ombros para qualquer limite estabelecido por convenção e transforma a música em veículo de uma verdadeira enxurrada de palavras. Em certa medida, o mesmo pode ser dito de qualquer canção. Mas na armada do poeta Allan Jones e o guitarrista Fábio Barros (Alunte), os versos preservam a inflexão das ruas, rescendem ao tumulto criativo próprio do slam.
O projeto logo ganhou a adesão de João Mário (El Presidente), Gabriel Perninha (The Baggios) e Luno Torres (Plástico Lunar), instrumentistas com manha suficiente para dotar a experiência de valor musical evidente. Aqui e ali, um verso é cantado, surge algo parecido com um refrão. Puro artifício de dinâmica. No todo, ‘Luz dentro do caos’ soa como uma extravagância literária, poesia com sangue nas veias.
Não é a primeira vez que um poeta digno da alcunha renega a tradição beletrista e renova a linguagem adoentada de pompa, com o auxílio de outros meios, além de papel e caneta. Pedro Bomba é um bom exemplo de poeta disposto a tudo para se expressar em alto e bom som. O disco da banda Madame Javali se distingue, no entanto, pela consistência do produto. Poucos volumes de poesia, lançados às pencas por estas praias, chegaram a ponto de fazer tão bonito.
E ainda tem gente com a audácia de questionar a minha má vontade com as academias encarquilhadas de letras. Estes precisam ouvir a estreia da banda Madame Javali. Há versos para todos os gostos. A mim, agrada a poesia que tem pulso, servida quente.
Madame Javali nas Terças Autorais:
25 de outubro, 20 horas, The Stones Pub.


