Rian Santos
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Eu poderia fechar os olhos para a presença dos ímpios na programação dos eventos promovidos pelo poder público em Sergipe. Mas o palco erguido pela Prefeitura de Laranjeiras sempre foi tão democrático quanto uma grande emissora comercial de rádio FM. Aponto o dedo, portanto.
Tenho alvos declarados. O peixe miúdo dos teclados de boteco, operários da cultura de massa, passa longe de minha mira. O mau gosto inculcado pelos donos da grana no juízo do populacho, ao contrário, merece o repúdio de toda a gente. Devinho Novaes e Cia Ltda, todos presentes no Encontro Cultural de Laranjeiras, não têm gogó para dividir o palco com a realeza da Música Popular Brasileira, gente como Alceu Valença. Mas lavam a jega, com a cumplicidade irresponsável de governadores e prefeitos – os responsáveis por um investimento vultoso na depravação da Cultura popular grafada a ferro e fogo na sensibilidade coletiva, em letras maiúsculas.
Arquivo de jornalista não falha. Consta que Wesley Safadão se envolveu em rumoroso escândalo fiscal relacionado com a fortuna recebida no São João de 2016, quando o sujeito lucrou o próprio peso em barras de ouro por se esgoelar em Sergipe. O Ministério Público Federal cobrou explicações sobre a diferença exorbitante do cachê cobrado pelo cantor de um dia para o outro, nação nordestina afora. Em um município, o show custou R$ 195 mil. No outro, o custo da apresentação realizada algumas horas depois pulou para quase R$ 600 mil. Mesmo considerando uma eventual flutuação, em função da agenda do cantor, a discrepância é flagrante, sugere a prática de superfaturamento.
Devinho, por sua vez, subiu ao palco para encerrar o Forró Caju, num já distante 2018, no embalo de um único “sucesso”. Tento lembrar o refrão pegajoso, reproduzido até o limite da exaustão pelas principais rádios da cidade, mas não tem jeito. Poucos anos depois, a música foi relegada ao completo esquecimento.
Metido a besta como sou, passo a vista sobre a programação do Encontro Cultural de Laranjeiras. O evento, em si, merece todos os aplausos. Trata-se de manter a fogueira da Cultura acesa, apesar de todos os pesares. Há, ali, entretanto, uma minoria estridente, composta por atrações francamente desprezíveis, a começar pelo próprio Devinho. Só não lhes atiro ovos podres em nome da boa educação – uma questão de modos e elegância.

