Homens, livros e HQ’s

O professor Gilvan Silva: um leitor formado pelos quadrinhos.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os esnobes não admitem. O caminho mais curto entre os malabarismos linguísticos de James Joyce e eventuais leitores de carne e osso, contudo, passa pelas páginas das histórias em quadrinhos.
Os professores de Literatura do ensino médio se esforçam até a exaustão, a fim de tornar o indigenismo indigente de Alencar mais ou menos palatável. Ao fim e ao cabo, no entanto, aos olhos relutantes de um leitor imberbe, homens metidos em trajes constrangedores, o rosto coberto por uma máscara, têm mais a dizer sobre a vida e o tempo presente do que um verso de Camões.
A sala de quadrinhos da Biblioteca Pública Epiphanio Dóriaé, assim,o espaço mais importante de todo o aparelho cultural mantido pelo governo de Sergipe. Ao menos, no que diz respeito ao incentivo à leitura. Organizado pessoalmente pelo gerente de projetos da unidade, o professor Gilvan Silva, ele mesmo um leitor inveterado, em dívida com a subestimada arte das novelas gráficas, o acervo em questão tem o potencial de formar gerações inteiras de literatos com o nariz empinado e nutrir a conversa pouca da aldeia com alguma reserva de inteligência, garantindo, talvez, a sobrevivência dos cafés e livrarias da cidade.
Jovem e metido a besta, eu confesso, reneguei as histórias em quadrinhos da infância tão logo acoitei a literatura mais vetusta sob o sovaco. Os russos na estante só voltaram a respirar o ar puro quando me deparei com as coletâneas de Angeli em edições luxuosas da Cia das Letras. OD aytripper de Fábio Moon & Gabriel Bá, as donzelas de Manara,os pecados e devaneios da adolescência, foram lembrados logo depois.
Sim, Lobato estava certo, um país se faz com homens e livros. Antes destes, no entanto, quase sempre vêm os quadrinhos.

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