DISCURSOS DE ÓDIO TRANSCENDEM O UNIVERSO ON-LINE E É PRESENÇA CONSTANTE NAS ESCOLAS

Vânia Azevedo

Após vinte e oito anos vivenciando situações das mais diversas no âmbito escolar (discussões acaloradas, bullying, e todo tipo de provocações como as célebres ameaças “te pego lá fora”), sinto-me aliviada por jamais haver testemunhado cenas de agressividade similar aos episódios de violência que tem tido a escola como palco; ceifando vítimas e espalhando terror. Estou falando de uma ordem de acontecimentos que evoluíram para uma escalada de violência que, em determinados momentos, já não se consegue separar o aluno enraivecido do criminoso confesso.
Quanta saudade do tempo em que as crianças e os jovens tinham a escola como um lugar seguro e os professores como pessoas da sua mais alta estima e consideração! Esse tempo passou, abrindo espaço para uma escola que nem sempre preenche as necessidades dos jovens; e, diferente do passado, já não se contentam com o modelo de ensino que lhes é imposto.
Embora os computadores tenham chegado à escola, fica mais claro a cada dia que esta não consegue acompanhar o mundo que nele se insere. A metodologia de ensino a que os professores são submetidos na sua formação – precisamos admitir – precária, é nítido, não consegue alcançar uma mudança que atenda, efetivamente, as expectativas dessa nova geração; que desconhece o que seja respeito ou mesmo gratidão.
Acreditar que quanto mais tempo o aluno permanece na escola mais manterá o foco nos estudos… As evidências têm demonstrado que não resolve o problema. Não é impondo metodologias obsoletas que a escola conseguirá acompanhar as transformações sociais vigentes. A escola está carente, sim, mas é de ensino de qualidade e criatividade. Na sua sapiência Paulo Freire já previra que “quando a escola não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”
Estamos vivenciando uma realidade que responde por contínuas ondas de hostilidade, intolerância e arrogância. São variáveis implícitas no discurso de ódio que paira na sociedade e que, pelo visto, tem impactado a vida de muitas pessoas. A lamentar temos as consequências dessa nova ordem que impera nas famílias (mais de perto os jovens em formação), que absorvem a tudo, e, na falta de maturidade, num ímpeto de cólera destrói não apenas a vida do outro, mas inclusive a sua); e estas não se dão conta do quanto tudo isso reflete negativamente na vida dos filhos. E quando a tragédia (geralmente anunciada) acontece, impacta a todos os envolvidos, além de estabelecer o pânico. É quando, sob os holofotes da mídia e as cobranças da sociedade, muitas são as medidas que as instituições envolvidas julgam ser necessárias tomar, mas que logo caem no esquecimento.
Passado um tempo, percebemos que tudo continua igual. Primeiro porque professor não é psicólogo para lidar com questões psicológicas; nem tampouco foi preparado para identificar transtornos psiquiátricos no aluno. Os professores (coitados!), também são vítimas e, cada vez mais, engrossam as estatísticas de doença mental.
A escola não se preparou para lidar com as novas gerações, cujo comportamento difere das gerações passadas – quando os pais tinham uma influência decisiva na vida dos filhos. O respeito que os alunos tinham pelos pais era compartilhado com os professores, viabilizando a relação professor-aluno (pautada no respeito); gerando uma convivência pacífica entre os envolvidos, e sem espaço para flertar com a barbárie.
Porém, a solução vai além do universo escolar ou mesmo das instituições que respondem pela educação. Hoje, quando o mundo vive o reavivamento da direita (cuja bandeira prega a violência e faz das armas seu cartão de visitas), disseminar mensagens de ódio tornou-se uma prática comum, (como incitar a violência nas redes sociais), potencializando o emaranhado de problemas que o mundo segue vivendo,à medida em que líderes aloprados assumem o poder. Não por acaso que países como U.S.A. e Brasil assumiram primeiro e segundo lugares, respectivamente, em número de mortos pela Covid. O discurso de ódio alimentado por lideranças políticas colaborou, entre outras consequências, para uma sociedade polarizada que foi determinante para estabelecer o caos na pandemia.
Portanto, a solução clama pelo envolvimento de toda a sociedade, no que diz respeito a conscientização da responsabilidade que todos precisam ter. Enquanto a sociedade não entender que a violência que vemos na televisão é a mesma que invade as nossas casas através da internet e domina as mentes de jovens de todas as idades, a violência seguirá crescendo como uma bola de neve: desestruturando governos, famílias, ceifando vidas inocentes e transformando jovens estudantes em oportunos delinquentes.

Vânia Azevedo é professora.

Compartilhe esta notícia