* Andrei Albuquerque
É um ataque ao sujeito que sofre sugerir que o seu sofrimento psíquico estaria sempre desvinculado de seu meio social e seria apenas uma questão de autorregulação emocional e motivacional. A bem da verdade, todo discurso que culpabiliza unicamente o sujeito por suas mazelas é muito útil a quem detiver o poder, seja nos palácios, seja no microuniverso das relações mais triviais do cotidiano.
Quanto à angústia e ao medo, suas manifestações sintomáticas são bastante conhecidas como se observa nos ataques de pânico e nos quadros de ansiedade persistente. Da preocupação constante à antecipação catastrófica, frequentemente se esquecem os fatores sociais que afetam o sujeito e ameaçam a integridade do seu corpo. Em um ataque de pânico, aquilo que não encontra expressão em palavras pode se manifestar no corpo, como aperto no peito, tonturas, sudorese, entre outros sintomas.
Já em 1895, em seu texto sobre a neurose de angústia, Freud distinguiu esse quadro da neurastenia e apontou, entre os fatores que poderiam contribuir para seu desencadeamento, o excesso de trabalho. Ou seja, o trabalho excessivo também adoecia aquela geração. A angústia é um sinal de perigo para o eu, mas também porta uma interrogação dirigida ao sujeito sobre o seu lugar no mundo e perante o seu Outro. E em meio às incertezas da vida brota a seguinte questão: o que o Outro familiar e social espera que eu seja ou faça? Essa indagação pode atormentar até o indivíduo mais pacato e adaptado ao seu modo de vida.
E por que o trabalho não seria uma questão incômoda quando se torna exaustivo, afetando a identidade do sujeito e o seu lugar no mundo? As mudanças sociais impactam o corpo do sujeito e, ao ameaçá-lo, abalam seu aterramento à vida. Nesse cenário, sofrem as minorias numerosas cujos corpos ficam mais expostos aos jogos de força dos poderosos que os consideram úteis à maquinaria de exploração, mas descartáveis. Todavia, esquecemos que as condições materiais precárias afetam o psiquismo e o corpo, por quê?
A sexualidade, irredutível a uma compreensão definitiva, constitui um elemento subversivo, disruptivo e singular que incomoda o autoritarismo, o moralismo e tudo aquilo que pretende se impor como universal. Por isso, nos devaneios autoritários, manifesta-se o anseio de controlar o corpo feminino e as expressões de gênero que não se encaixam na divisão de papéis. E, sim: que o sujeito trabalhe e não questione, mas que se reinvente full time, medique-se e se regule por meio da terapia e da meditação! Sexualidade, gênero e trabalho podem ser, portanto, dimensões subjacentes ao sinal de angústia que irrompe no peito do sujeito e na organização de sua vida.
Temer pela própria integridade física, pela própria existência e pela vida dos entes queridos diante da possibilidade de uma guinada autoritária não é, por si só, manifestação de “psicose política”, como se disparou nas redes sociais; não se trata de um “delírio persecutório de conteúdo político”. Há ameaças que não são apenas imaginárias. Um levante autoritário pode revelar, ao longo de meses e anos, uma face cruel e fascista que busca oprimir e aniquilar a diferença, embora, no atual momento eleitoral, se apresente sob uma roupagem democrática e supostamente repleta de valores cristãos.
O medo que afeta a vivência sexual e de gênero, o voto feminino e os benefícios sociais que garantem a subsistência dos corpos não é uma ilusão narcísica: é real.
* Andrei Albuquerque, psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia Social pela UFS

