Sobre a morte

* Lelê Teles
Morremos todos, todos morreremos.
Mais dia ou menos dia.
O mistério é estarmos vivos.
“Prefiro morrer do que perder a vida”, diz o adágio.
Biden, por exemplo, quer melhor exemplo de morto-vivo.
Tem gente morrendo de fome e gente morrendo de tanto comer.
Uns morrem de medo.
Outros morrem de inveja.
“Eu morro de vergonha.”
“Eu morro no morro”, diz o favelado.
Há quem morra de murro.
Gente morre de frio, morre de calor…
Morre de vontade.
Uns morrem de morte morrida, outros de morte matada.
David Carradine, o Kung Fu, morreu enquanto se punhetava.
Tatu, o anão da ilha da fantasia, se matou com um tiro no peito.
O nanismo e o onanismo.
Hitler morreu-se e Mussolini foi morrido.
Mais de seissentas mil pessoas escravizadas morreram na travessia forçada.
O Brasil é o país do mundo onde mais pessoas trans são matadas.
Morre quem se cuida e quem não se cuida.
Quem dorme cedo e quem não dorme.
Quem tá vivo, amigo, uma hora morre.
Jesus, que é filho legítimo de Deus, morreu.
Morreu, mas ressiscutou, dirás.
Digo mais, Elias e Enoque partiram dessa vivinhos da silva.
Passaram dessa para a outra sem nunca terem visto a cara da morte.
Cazuza viu a cara da morte e ela estava viva.
Buda morreu, morreu Gandhi, também morreu Alexandre, que se achava o grande…
Morreram todos os faraós, tzares e imperadores.
Morrem caciques, pajés, magés, xamãs e curadores.
Maria da Conceição Tavares fumava como uma caipora, viveu até 94.
Niemeyer viveu até os cento e quatro fumando cigarrilhas.
Seo Teodoro, do boi, fumava e bebia cachaça, passou dos noventa.
Vi outro dia um jogador de futebol, jovem atleta profissional, cair morto dentro do campo.
Do nada, catapimba: “tá lá o corpo estendido no chão”.
Tem bebês natimortos e fetos já mortos no ventre.
Tem quem morra cedo sem nunca ter fumado, comido agrotóxico ou bebido coca-cola.
Tem cardiologista morrendo do coração.
E o trem do Solano apitado na estação: tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome…
Evitar é sempre bom, comer bem, não fumar e não beber, mas isso não garante nada.
De repente, do nada, vem um carro na contra-mão e pum.
Pãn, pimmm.
Chororô e epitáfio.
Morre ciclista, corredor, nadadar, crosfiteiro…
Morre vegano, carnívoro e maconheiro.
Morre fumante, não fumante, macumbeiro…
Morrem velhos, jovens, crianças…
Gays, machos, sapatão, travesti…
Punks também morrem, como morrem coroinhas, dizimistas e quem se enfurna num seminário.
Morrem chefes, entregadores, garis, galãs…
Morrem pais, padres, padrastos, padrinhos, PMs…
Morrem ateus, espíritas, apóstatas…
Morre quem ganha e quem não paga a aposta.
Palhaços também morrem.
Há quem morra de rir.
Tem gente que morre de velha.
Morrem anões, cangaceiros, profetas, pedintes, putas e coveiros.
O grande mistério é como você quer viver antes da morte.
Quando e quanto não é contigo.
Viver é opcional.
Pra morrer, basta estar vivo.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).
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