* Antonio Passos
Após mais de um século de controvérsias sobre os usos e a proibição da maconha no Brasil, recentes mudanças legais e jurídicas recolocam o tema sob os holofotes da mídia e reacende o interesse da opinião pública.
Nesse fumacê centenário, diferentes ramos do conhecimento viajaram pelo assunto, alargando sua compreensão. Partidos políticos e movimentos sociais assumiram o debate. Cada um desses atos figurando como contribuições até os atuais desdobramentos.
Curiosamente, o primeiro discurso com rotulagem científica realizado no Brasil sobre a maconha foi elaborado em Sergipe. Trata-se de “Os fumadores de maconha: efeitos e males do vício – Memória apresentada ao Segundo Congresso Científico Pan-Americano, reunido em Washington, a 27 de dezembro de 1915”, escrito pelo médico Rodrigues Dória.
Já em 1946, o também médico e sergipano Garcia Moreno publica “Aspectos do maconhismo em Sergipe”. Moreno ressalta a associação entre o consumo de maconha e ações criminosas. Entretanto, discordando de Dória, afirma não ter encontrado qualquer evidência relacionando o uso da erva como causa de distúrbios mentais.
Com o passar do tempo, as abordagens dos dois sergipanos passaram a ser duplamente confrontadas. Por um lado, pelo avanço das próprias pesquisas médicas e, por outro, emerge a concorrência de discursos gestados no seio da sociologia e da antropologia, sobre o mesmo tema.
A sociologia propõe um olhar para o consumo da maconha como mazela social e não mais como patologia individual. As duas acepções, entretanto, apontam para a necessidade de cura, repressão ou, ao menos, ações sociais voltadas para o abandono do uso.
Já na abordagem antropológica o consumo deixa de ser percebido como patologia individual ou mazela social, recebendo um novo estatuto que ressalta a dimensão política dos consumidores e a legitimidade de opção pelo uso.
Chegamos então aos anos 1980 quando todo esse incremento incorporado aos debates favoreceu uma maior publicização do assunto. O Partido Verde, então comandado pelo jornalista Fernando Gabeira, levantou de modo pioneiro e solitário a bandeira da legalização. De lá para cá movimentos sociais continuaram tremulando a bandeira da causa.
O aprofundamento do tema pode ser buscado em dois livros recentemente publicados: “História da Maconha no Brasil”, de Jean Marcel Carvalho França e “Fumo de Negro: A Criminalização da Maconha no Pós-Abolição”, de Luísa Saad. Este último, inclusive, além de dedicar um capítulo a Rodrigues Dória, lista nas referências nada menos que treze publicações assinadas pelo médico sergipano.
* Antonio Passos é jornalista

